Começar um projecto de vinhos é sempre muito oneroso e dá muitas dores de cabeça.…
Como fazer um vinho – parte II – Funky
O ChatGPT é bastante elucidativo sobre o que é um vinho funky: algo na fronteira entre o aceitável e o imbebível. Também nos diz que o termo é muito usado pelos adeptos dos chamados “vinhos naturais”, conceito em si contraditório, porque o vinho não é natural, é uma criação humana; se formos pelo lado da pouca intervenção, também estamos conversados (ver crónica anterior).
Ainda assim, há quem ache graça a vinhos que, não raramente, enunciam qualidades, escondendo segredos pouco dignificantes. Se falarmos de brancos, há regras a seguir para ser funky: vindimar cedo, muito cedo mesmo, a fim de ter graduações na casa dos 11º; acima dos 12º, só mesmo in extremis. Na fermentação, evitar qualquer contacto com o oxigénio, gerando assim vinhos muito reduzidos. Alguns consumidores vão delirar com este lado “mineral”; fermente o mosto com as leveduras indígenas que vêm com as uvas, ou diga que só usou essas, que ninguém nota a diferença. As indígenas não são necessariamente boas, podem ser ou não, mas deixe pra lá, o vinho tem de falar por si, né? Claro que não pode usar sulfitos, isso seria crime, ainda que uma jola com uma sandes de fiambre tenham sulfitos qb; o coitado do vinho é que fica sempre com as culpas. Deve procurar obter um vinho de acidez muito alta (e se tiver pouca, acrescente, que não se vai perceber que houve ali mãozinha…); se a acidez ficar exageradamente alta, não se preocupe que haverá apreciadores.
Continuando: se o vinho sair com pouco aroma (algumas castas das “antigas” não cheiram a nada), pode sempre dizer que é a expressão do “terroir único”. Há também que produzir em quantidades homeopáticas, de preferência abaixo das 1000 garrafas: dessa forma, se o resultado for fraco e não houver muitos apreciadores, nada de grave vai acontecer; grave era se estivéssemos a falar de 200 000 garrafas, aí é que a “originalidade” poderia ter um preço muito elevado a pagar. Obrigatório indicar no contra-rótulo que o vinho foi feito com pouca intervenção (também ninguém sabe bem o que isso quer dizer…) e por isso haverá quem vai bater palmas. Para alegrar os mais crentes, pode sempre acrescentar que a vindima foi feita quando Neptuno estava alinhado com Júpiter. Aí sim, vai ser o delírio… O ciclo vai fechar-se se sugerir que, ao consultar o calendário biodinâmico, haverá dias em que não deve beber o vinho, por serem “dias raiz”. Convém, claro, pedir uma pipa de massa pelo vinho e tem direito a ficar zangado com o mundo se o mundo não lhe der o devido valor.
No caso dos tintos também há procedimentos a ter em conta: usar preferencialmente castas com pouca cor de modo a obter vinhos que pouco vão além de rosés, ou macerar tão pouco, que até de Alicante Bouschet se consegue fazer um tinto modernaço. Doenças da vinha não sabe o que são, os vizinhos que fazem muitos tratamentos é que têm problemas. Diga que não imagina se se fez a maloláctica porque “o vinho é que sabe”: isso porá corações a bater forte e, claro, nunca deverá exceder os 12/12,5% de álcool para não dar o ar de vinho tecnológico e industrial. Bom mesmo é que tenha sempre alguns defeitos, mesmo que em pequena dose – fenóis voláteis, acetato de etilo, acidez volátil, redução, mofo de vasilha; deverá sempre estagiar só em madeira velha mesmo que muito contaminada, porque a madeira velha é a verdadeira marca do vigneron. E se receber visitas de jornalistas, não esqueça: roupas sujas, cabelo mal lavado e pés por lavar (por andar o dia todo na vinha, a sentir a terra) são dresscode obrigatório. Depois respire fundo: a perfeição é muito cansativa, os antigos é que sabiam como era!
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Munda Encruzado branco 2022
Região: Dão
Produtor: Fontes da Cunha
Casta: Encruzado
Enologia: Joana Cunha
PVP: €22
Da quinta do Mondego saem alguns vinhos, sempre marcados pelas castas tradicionais da região. Destaca-se o tinto de Touriga Nacional e este Encruzado.
Dica: marcado pela presença da barrica nova, cheio e gordo, com acidez excelente, será bom companheiro de queijos de pasta mole ou peixes com molho de manteiga, por exemplo.
Júlio B. Bastos Grande Reserva Alicante Bouschet tinto 2020
Região: Alentejo
Produtor: Júlio Bastos
Castas: Alicante Bouschet
Enologia: Sandra Gonçalves
PVP: €109,90
As uvas provêm de vinhas velhas desta casta que se tornou quase um emblema do Alentejo. Uvas pisadas a pé em lagares de mármore e estágio de 14 meses em barricas novas.
Dica: concentrado e muito rico na fruta negra, um tinto que impressiona, todo ele num registo de grande vigor mas enorme polimento. Grande Alentejo! A beber e a guardar.
Mamoré de Borba Syrah tinto 2022
Região: Alentejo
Produtor: Sovibor
Casta: Syrah
Enologia: António Ventura
PVP: €15
Este produtor tem um portefólio diversificado, que vai desde os vinhos de talha até varietais de castas esquecidas.
Dica: moderado na concentração e extracção, é um tinto convivial que abraçará de bom grado a culinária regional. E não justifica grande guarda.
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