Começar um projecto de vinhos é sempre muito oneroso e dá muitas dores de cabeça.…
E já passaram 120 anos!
A mesma região, uma história que se repete
Confesso que sinto uma volta no estômago quando leio textos, e eles existem em quantidade, para todos os gostos e orientações ideológicas, que remontam ao séc. XIX e início do séc. XX, e, invariavelmente, titulados, A Crise do Douro. Quase que se assume que a palavra “crise” liga com “Douro”, o que me parece um bocado abstruso. A mais recente acha para esta fogueira veio da aprovação, pelo Parlamento, e por proposta do deputado único da Madeira do partido JPP: obrigar a usar aguardente feita no Douro para beneficiar o Vinho do Porto. Ora, como uma pipa de Vinho do Porto (de 550 litros) incorpora, em média, 435 litros de mosto e 115 litros de aguardente, percebe-se que o assunto “aguardente” é muito importante. O que é mais curioso é que, há 120 anos, o assunto já andava em discussão.
Na revista A Vinha Portugueza, tomo XXI, relativo a 1906, pp 309, escreve Visconde de Villarinho S. Romão,”Conceda-se em nome da liberdade ao Sul a creação de seus typos, Lisbonense, Torres Wine, etc., mas não se obrigue o Douro, em nome da mesma liberdade, a comprar suas aguas-ardentes no Sul, a elevado preço, quando a baixo preço facilmente as obtem em paizes que por muito fecilitarão então, a entrada dos vinhos do Norte”. O assunto da origem da aguardente já fez correr rios de tinta mas pode colocar-se de forma simples: se há regiões e empresas que se dedicam apenas à produção de aguardente, se as castas utilizadas para fazer vinho para destilação são variedades específicas, há muito reconhecidas como válidas “apenas” para este fim, como a nossa variedade, Tália; se são castas com produções de 20 e mais toneladas por hectare; se para fazer um litro de aguardente são precisos 7 litros de vinho e que, por isso, convém que se trate de uma variedade muito produtiva; e, se as produtividades no Douro pouco passam das 4 ou 5 ton/ha, pode perguntar-se onde é que os deputados estavam com a cabeça para aprovar aquela obrigação de uso da aguardente duriense. Há uns anos, tive a sorte de fazer na sala de provas de uma empresa de Vinho do Porto, uma prova olfactiva de amostras de aguardente desde os anos 80. Comparar com as actuais aguardentes é quase doloroso, de tal forma a diferença é abissal, actualmente de muito melhor qualidade. De onde vêm as melhores aguardentes? Podem ter origens várias porque a origem do brandy, como é chamado, não interfere com a tipicidade do mosto a que é adicionado. Tem assim de ser dado a cada operador a opção do, onde comprar e a que preço. Tudo fiscalizado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e Porto.
Do Douro, o que mais ouvimos é a palavra crise. Mas não é de agora. No mesmo ano, 1906, e no mesmo número da revista mensal, temos a opinião de F. Almeida Brito, Director dessa publicação. O lamento poderia ter sido escrito hoje: O Douro produz por preço elevado e o commercio não poderá pagar-lhe a colheita pelos preços que lá imaginam. É porém preciso que se faça alguma cousa. O Douro está n’uma situação insustentável. Qualquer cousa basta para a agitar.” Entretanto o Governo aprovou a Resolução 133/2025 de 28 Agosto que, eliminados alguns termos não usados há 120 anos, poderia ter sido escrita em 1906: “a elaboração e a implementação de um plano de acção para a gestão sustentável e valorização do sector vitivinícola da RDD”. Hoje é a aguardente, ontem foi a, cada vez mais incompreensível, tutela do Estado no IVDP, amanhã vai ser a questão do benefício e na semana seguinte os preços baixos que as grandes empresas pagam as uvas à lavoura. Uma verdadeira never ending story. Quem nos acode? Nós, que gostamos de Vinho do Porto, temos de fazer o quê? Um crowdfunding para ajudar a lavoura? Se tiver de ser…
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Freixo Reserva branco 2023
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Herdade do Freixo
Castas: lote de várias castas com a Arinto e Alvarinho em destaque
Enologia: Diogo Lopes
PVP: €14,90
Vinhas na zona do Redondo, na serra d’Ossa. A adega é um primor arquitectónico que merece visita. Após a vinificação o vinho estagiou 4 meses em barrica.
Dica: ainda que marcado pelas notas tostadas e baunilhadas da madeira, é um branco gordo, com imensa fruta branca, cheio no palato mas com acidez excelente. Perfeito para queijos de pasta mole, por exemplo.
Ravasqueira Vinha das Romãs tinto 2023
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Ravasqueira Vinhos
Castas: Touriga Francesa e Syrah
Enologia: equipa dirigida por David Baverstock
PVP: €19,90
Uvas de uma única parcela (7,5 ha), agora com 24 anos de idade, estágio de 20 meses em barrica. Da mesma vinha também se produz um Blanc de Noirs.
Dica: levemente mentolado, boas notas vegetais, muito atractivo e cativante no aroma de fruta madura. Fino e muito proporcionado no palato, muito expressivo, dá belíssima prova desde já.
Casa da Réssa Reserva tinto 2021
Região: Douro
Produtor: Ramtham Douro Wines & Valley
Castas: Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Barroca
Enologia: Paulo Nunes
PVP: €47
Tem origem em vinhas velhas do Baixo Corgo, o vinho após terminada a fermentação teve uma maceração de 15 dias, e um estágio em barrica e inox.
Dica: aroma maduro de fruta vermelha e negra, muito boa estrutura de boca, com madeira bem ajustada e um perfil que aponta para consumo agora ou guarda em cave.
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