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Notícias de longe

Com vinhos portugueses e tudo

Escrevo da Croácia onde irá decorrer a edição deste ano do Concurso Mundial de Bruxelas. A esta povoação costeira (Porec) chega-se por autocarro após o voo Lisboa-Veneza, com brevíssima passagem pela Eslovénia. Aqui estamos em terras de Malvasia, a casta branca que domina nesta zona do país. Nada de estranhar, tal a presença que a variedade tem nos países da bacia do Mediterrâneo. No primeiro jantar, chega-nos à mesa um Malvasia pesadão e resolvemos passar aos tintos; um Merlot com gás (!), o que é erro grave e um Cabernet Sauvignon. Provamos e ficamos sempre com a sensação que nos momentos de dúvida, é melhor seguir o instinto e agarrarmo-nos a algo que já sabemos o que nos vai trazer. No fundo, mesmo sem querer, procuramos a tradição, as boas notas apimentadas do Cabernet, o lado verde e com taninos finos. Tudo ligou bem com o jantar buffet, rico e muito variado. A Croácia tem cerca de 17 600 ha de vinhas, com a produção de branco (76%) a superiorizar-se claramente ao tinto, que se queda pelos 25%. País costeiro, de clima mediterrânico e com 1185 ilhas, tem na Istria a principal zona produtora de vinhos. A tal Malvasia é uma versão local desta casta que se integra na muito alargada família das malvasias. Também Portugal faz parte deste grupo já que a casta está bem presente quer no Douro, quer na Madeira. E uma versão, digamos, menos nobre desta variedade tem também representação lusa, a chamada Malvasia Rei, muito usada para vinhos vulgares, os tais que não ficam na história. Os croatas reclamam a originalidade desta «sua» malvasia que, é verdade, não encontra semelhanças com outras com o mesmo nome e terá sido referenciada pela primeira vez em 1385. Nos tintos domina também uma variedade local (referenciada desde 1390) e que dá pelo nome de Teran, casta enigmática que até hoje ainda não se lhe descobriu quer a origem quer a filiação; tendencialmente muito produtiva, chega com facilidade às 20 toneladas por hectare se ninguém tiver mão nela. Andamos há dois dias as provar vinhos quer de uma quer de outra e, sem deslumbrar, parece que a malvasia leva mesmo a melhor. Mais de 7000 amostras esperam-nos para três dias de trabalho. Vejamos as provas: no primeiro dia tive sorte e calharam-me vinhos de qualidade média muito boa: um grupo de brancos do Languedoc, todos a darem boa prova, ainda que dedificil identificação, já que poderiam ser de qualquer parte do mundo; tintos de Murcia e do Roussillon a afinarem pelo mesmo padrão de qualidade. Surpresa mesmo foi o Syrah da China, com sete vinhos (em 9) muito bons. No segundo dia tivemos um grupo de brancos portugueses do Alentejo que se portaram bem, vinhos italianos da Puglia, franceses de Bordéus (Haut-Médoc) e, de novo, a grande surpresa do Cabernet Sauvignon da China, de qualidade muito variável mas alguns de excelente recorte. Para terminar houve menos surpresas e apenas a região de Cigales (Castilla y Leon) merece destaque, com tintos que lembravam o Douro. A Casa Santos Lima teve um prémio especial por ser a empresa que mais medalhas arrecadou, até hoje, neste concurso. Mais de 300, disse-nos e enólogo. É obra!

Sugestões da semana:
(Os preços foram indicados pelos produtores)

DSF Colecção Privada branco 2022
Região: Reg. Pen. Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Casta: Verdelho
Enologia: equipa de enologia da J. M. Fonseca
PVP: €10
A casta, que também existe na Madeira, mostra aqui a sua boa adaptação ao clima da zona de Azeitão. É sempre um branco de sucesso, de que se fizeram cerca de 12 000 garrafas.
Dica: Muito boa fruta, madura mas espevitada por boa acidez, é branco consensual, fácil de gostar e que deve ser bebido enquanto jovem.

São Luiz rosé 2022
Região: Douro
Produtor: Sogevinus
Castas: Touriga Nacional e mais três variedades durienses
Enologia: Ricardo Macedo
PVP: €7,50
A quinta de S. Luiz situa-se entre a Régua e o Pinhão e sempre foi o centro de operações da Kopke. Feito em inox, fica depois a estagiar em cuba sobre as borras até ao engarrafamento.
Dica: suave cor salmonada, aroma delicado e fino, elegante e seco, é um rosé de verão para peixe e marisco.

Caves Velhas Romeira Garrafeira tinto 2019
Região: Reg. Lisboa
Produtor: Enoport
Castas: Castelão, Tinta Miúda e Trincadeira
Enologia: Nuno Faria
PVP: €6,70
Mantém no essencial as castas que já tinha nos anos 60 (vinham indicadas no contra-rótulo) e era, então, marca muito presente na restauração. O mais antigo Romeira que provei foi de 1959.
Dica: o estilo é antigo, polido e fácil. É assim um bom exemplar dos tintos de outrora. Muito gastronómico, é à mesa que será mais bem apreciado.

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