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As estrelas e o seu brilho

Às vezes esquecemo-nos…

Para quem anda em provas, em visitas a produtores e a receber constantemente notas de imprensa por tudo e por nada, é certo e sabido que já percebeu que há regiões mais dinâmicas que outras e produtores mais atrevidos que gostam de dizer e mostrar o que andam a fazer. Num mundo tão carregado de marcas de vinho, num universo em que produtores se pisam ou devoram uns aos outros, onde o jogo dos preços dita a lei de quem sobrevive e quem morre, neste ambiente, dizia, percebe-se mal que um produtor fique sentado em casa à espera que o seu vinho se venda, quem sabe por milagre ou intervenção divina. Não é o caso dos três produtores que trago hoje como sugestão. Têm, entre si, algo em comum: não fazem parte do «núcleo sexy» que atrai, quer a comunicação social da especialidade quer a generalista. Invariavelmente são quase sempre os mesmos produtores que são falados na imprensa, são sempre os mesmos que os winewriters visitam quando vêm a Portugal. E visitam sempre as mesmas regiões. Aos outros, sobretudo se estiverem fora do Douro, é melhor esquecer, dificilmente terão a sorte de serem contemplados. Um dos que falo esta semana, Domingos A. Sousa confessou que durante anos nunca conseguia que esses visitantes tivessem um momento para ir à quinta, conhecer o projecto e provar os vinhos. Penso que o termo resiliência lhe assenta muito bem. Vai à luta, não desarma, não faz escarcéu; são os seus vinhos que falam, as vinhas velhas que trata com esmero dão-lhe razão, sabe bem que neste negócio desistir não é opção. O seu Gaivosa, agora em modo comemorativo dos 30 anos de vida, é um grande vinho do Douro. Não precisou de ser do núcleo sexy para ganhar o lugar que agora ocupa. Às vezes esquecemo-nos…
O branco do Dão, com a varinha enológica de Nuno C. Abreu, ostenta o título de Dão Nobre, a classificação mais alta que os vinhos da região podem ambicionar. Nuno já a obteve, com vinhos brancos, por três vezes. Além dele, apenas um tinto da Casa de Santar teve direito ao título. Muito pouco como se vê, e não se percebe; a região tem um conjunto muito alargado de vinhos candidatos, assim as câmaras de provadores não tenham receio de premiar os bons com classificações elevadas. Nuno conseguiu o 1º Dão Nobre em 2015, depois 18 e agora com o 2019. Não se estranha que a Encruzado seja a variedade dominante; ela é, actualmente, responsável pelos melhores vinhos da região. Mais uma que não é sexy nem anda nas bocas dos que «diz que são uma espécie de críticos», mas está, seguramente, no patamar de cima das melhores castas portuguesas (noutra crónica falarei das que eu entendo lhe fazem companhia no primeiro patamar…). Não brilha? Às vezes esquecemo-nos…
A escolha em tinto recaiu num vinho de Palmela, da casta Castelão. Outrora dominadora em absoluto dos tintos de Setúbal, ela tem vindo a cair nas preferências dos consumidores mas continua a ser responsável pelos vinhos mais originais que a região tem. Ainda que presente noutras zonas do país, é aqui que melhor se expressa: dá vinhos de grande longevidade, agradáveis logo em novos. A Sivipa foi criada em 1964 mas teve recente reorganização e está agora a surgir com vinhos de pequenas produções mas bem originais, em vinhos tranquilos e em Moscatel de Setúbal. Às vezes esquecemo-nos…

Sugestões da semana:
(Os preços foram indicados pelos produtores)

Quinta da Gaivosa tinto 2019
Região: Douro
Produtor: Domingos Alves de Sousa
Castas: cerca de 20 castas co-plantadas
Enologia: Tiago Alves de Sousa
PVP: €40
As vinhas têm cerda e 80 anos. O estágio prolongou-se por 15 meses em barricas (25% novas). Produzidas 15 420 garrafas, 570 magnuns e 40 duplo-magnuns.
Dica: um tinto de grande harmonia mas com a tensão que a juventude lhe transmite, especiado, polido e a dar grande prova agora. Pode guardar por 20 anos.

Fonte do Ouro Nobre branco 2019
Região: Dão
Produtor: Soc. Agríc. Boas Quintas
Castas: Encruzado (92%) com Arinto e Cerceal Branco
Enologia: Nuno Cancela da Abreu
PVP: €75
A fermentação começa em inox e logo de seguida vai para barricas novas onde termina e permanece por 6 meses. Fizeram-se (apenas) 2400 garrafas.
Dica: a classe pura da casta Encruzado aqui com tratamento de luxo. Gosta de grandes brancos da Borgonha? Este não anda longe…

Serra Mãe Reserva tinto 2021
Região: Palmela
Produtor: Sivipa
Casta: Castelão
Enologia: José Caninhas/Filipe Cardoso
PVP: €10
A empresa, outrora um dos armazenistas da região, está a entrar no mercado com produtos de nicho quer em vinhos tranquilos, quer em moscatéis, além de edições especiais, como o branco Botelharia de 2009.
Dica: este é um bom exemplar da casta quando as uvas vêm de vinhas velhas. Harmonioso e macio, grande equilíbrio entre aroma e sabor. Intensamente gastronómico.

 

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