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O mais difícil já passou

É o que se ouve agora na Graham’s

Já ouvi tantas versões que já não sei a quem se atribuia a frase que justificava a fama e o sucesso do Chateau Mouton Rothschild, em Bordéus: «O mais difícil são os primeiros 200 anos!» Antes de mais, a frase lembra aos apressadinhos que não se chega ao Éden por uma breve epifania mas antes por um trabalho sistemático e continuado sem cedências na qualidade. Creio que aquela máxima se aplica bem à empresa de Vinho do Porto Graham’s que comemorou 200 anos em 2020. Só agora, passada a pandemia, houve oportunidade de juntar um pequeno grupo de Port Lovers para, solenemente, lembrar o longínquo ano de 1820 em os que irmãos William e John Graham, escoceses de origem e em Portugal para negociar têxteis, receberam como pagamento, não dinheiro mas 27 pipas de Vinho do Porto. A qualidade era tão alta que eles resolveram estabelecer-se também como negociantes do generoso. Mais tarde, em 1890, adquiriram a quinta dos Malvedos, entre o Pinhão e a foz do Tua. Durante toda a sua existência e até à venda da empresa à família Symington em 1970, a Graham abasteceu-se maioritariamente junto de lavradores que faziam o vinho e o vendiam já feito à empresa. Era assim o negócio do Vinho do Porto até à década de 80 do séc. XX. Os Graham venderam a empresa e, mais tarde, em 1981, a quinta dos Malvedos. Hoje a Graham’s é um dos pilares da Symington e os seus vintages os mais afamados. Com o enorme crescimento da família – hoje um dos maiores proprietários de hectares de vinhas no Douro – juntaram-se à Graham, a Dow’s, Warre, Cockburn’s, e Quinta do Vesúvio. O modelo de negócio mudou bastante e, das 15 a 20 000 caixas de 12 garrafas que nos anos 80 correspondiam a uma declaração de vintage Graham’s, hoje opta-se por declarações minimalistas com elevadíssima qualidade que, pela raridade, possam continuar a suscitar o apetite dos compradores, quer nacionais quer estrangeiros, sobretudo o tradicional mercado inglês e dos novos mercados, onde se destaca o americano. O ramo Graham permaneceu no sector do Porto através de John Graham que fundou a empresa Churchill Graham. Uma das maiores, senão mesmo a maior mudança, foi precisamente a aquisição de quintas, deixando a Symington de estar dependente dos lavradores e passando ela a vinificar. Agora compram-se uvas, não se compra vinho. Isto significa um mais elevado controle sobre todo o processo, da vinha ao vinho, com a consequente melhor identificação e destino dos lotes: para Vintage, para LBV, para Colheita, para Tawnies com indicação de idade ou para Vinho do Porto de entrada de gama, além dos DOC Douro. Nunca os irmãos escoceses poderiam imaginar o sucesso que se obteve pela acertada decisão de começar um negócio com 27 pipas de vinho; hoje é bem mais difícil uma vez que são precisas 150 pipas de Vinho do Porto em stock para arrancar com uma empresa. E já foi bem pior, porque até há poucos anos eram 300 as pipas que se exigiam. Por isso alguém disse que era mais fácil criar um banco de raiz do que uma empresa do Vinho do Porto. Para comemorar a data, a família Symington (actualmente a 5ª geração) criou um móvel de luxo – 30 unidades apenas – com vintages Graham’s e Porto Colheita, copos e decanter em cristal. Um luxo que se espera atinga os €25 000 em leilão. A bem dizer não é fácil chegar aos 200 anos e há que ter dignidade no acto da comemoração.

Sugestões da semana:
(Os preços foram indicados pelos produtores)

Dona Maria branco 2021
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Júlio Bastos
Castas: Viosinho, Arinto e Antão Vaz
Enologia: Sandra Gonçalves
PVP: €8,50
Produzido na zona de Estremoz. Este produtor tem apostado também em algumas castas de fora da região como é o caso do Viognier. O seu vinho mais célebre é o tinto Grande Reserva Alicante Bouschet.
Dica: este é o clássico vinho de meia estação, fresco pela acidez elevada mas gordo e cheio, a pedir pratos com algum volume, como cozido à portuguesa.

Quinta dos Carvalhais Reserva tinto 2019
Região: Dão
Produtor: Sogrape Vinhos
Castas: Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz
Enologia: Beatriz Cabral de Almeida
PVP: €27
A castas foram vinificadas em separado e o vinho estagiou depois por 12 meses em barricas novas e usadas. Produziram-se cerca de 6000 garrafas.
Dica: aqui impera o balanço perfeito entre finura e robustez, com acidez equilibrada e barrica muito bem integrada. O prazer à mesa está assegurado.

Porto Graham’s LBV 2017
Região: Douro
Produtor: Symington Family Estates
Castas: várias
Enologia: Charles Symington/Henry Shotton
PVP: €15,90
As uvas têm origem em várias propriedades, algumas são propriedade de membros da família. O vinho, após a abertura durará, com qualidade, cerca de 2 meses.
Dica: fruta negra bem madura, leve nota floral, um Porto cheio e doce, perfeito para sobremesa, com queijos azuis ou cheesecake com frutos vermelhos.

 

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