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A vindima é uma festa

E a adega, uma escola

Seja nos antigos folhetos do Estado Novo, seja na adega de um produtor onde ainda existam lagares, a época da vindima traz-nos sempre imagens de gente feliz, a rir para a câmara. A vindima é uma festa que alegra mais a alma do que a bolsa. Quem entra na adega tem tudo para aprender, desde a lavagem dos equipamentos antes de chegarem as uvas – lembro-me do meu pai a lavar os dois toneis e as dornas nas vésperas de chegarem as uvas – até à pisa, momento para o qual são sempre convocados os visitantes. Pisa-se e repisa-se, até que se perceba que tudo já está pronto para arrancar a fermentação. Na minha experiência de infância eram as uvas brancas (com engaço) que eram pisadas pela miudagem, sim, que essa conversa de bica aberta versus curtimenta era assunto para intelectuais. Tudo era pisado com pezinhos lavados, que o desengaçador era máquina desconhecida. Hoje as práticas são variadas; desde cachos inteiros que são colocados no lagar, com pouca pisa, até tintos que são parcialmente ou totalmente desengaçados, em função do vinho que se quer produzir, muito ou pouca maceração, enfim, escolhas para todos os estilos. Hoje fala-se da música ambiente que toca durante a pisa, sejam os AC/DC para gente moderna, seja o acordeão e as músicas tradicionais, sobretudo nos dias em que se sabe que a televisão virá fazer uma reportagem. Para mim e para os meus irmãos pisadores não havia música. Em boa verdade nem havia electricidade e o pequeno rádio a pilhas não tocava nada que valesse a pena ouvir. Quando chegava a hora da prensagem é que eram elas: fazia-se um monte no meio do lagar, atavam-se as películas e o engaço com corda a fazer uma espécie de cilindro e colocava-se por cima uns toros de madeira para que um longo tronco de madeira, com pesos sérios na ponta fizesse a prensagem até não haver mais líquido. Tudo tarefas que deixariam os enólogos de hoje com dores de cabeça. Enquanto hoje a fermentação decorre dentro lagar, no todo ou em parte, no meu lagar não era assim. À saída do lagar havia um cesto de verga onde eram recolhidas as películas que se tinham escapado e, para os pipos ia apenas o sumo, medido em almudes. Para que o resultado final não fosse muito alcoólico, lá se juntava um almude de água de quando em vez. Não era o tempo de se apreciar os vinhos muito alcoólicos e muito menos os brancos, que se queriam ligeiros e bebíveis por toda a família. Adicionar água ao mosto é ainda prática actual, ainda que não desejável. Estava na hora de preparar a mecha de enxofre que então se colocava a arder dentro da pipa para evitar oxidações. Estava na altura de dar o fora que o cheiro era insuportável. Hoje é tudo mais certinho, mais higiénico, mais profissional. No entanto, o charme da adega não se perdeu e, quem nunca lá esteve, deveria arranjar maneira de participar numa vindima. Algumas grandes empresas abandonaram a pisa a pé e, por exemplo, os Symington apenas a mantêm na quinta do Vesúvio onde, de facto, é mesmo uma grande festa que já meteu fado e música ao vivo de grande qualidade. No meu lagar ficava tudo em silêncio. Fechava-se a porta e todos estavam proibidos de entrar no santuário. Só feiticeiros, alquimistas e druidas para que se fizesse magia. À sorrelfa íamos lá provar. Com uns figos secos a acompanhar…

Sugestões da semana:
(Os preços foram indicados pelos produtores)

Rola Pipa branco 2020
Região: Pico (Açores)
Produtor: Coop. Vitivin. da Ilha do Pico
Castas: Verdelho, Terrantez do Pico e Arinto dos Açores
Enologia: Bernardo Cabral
PVP: €25
As três variedades vêm de três zonas diferentes e foram vindimadas em alturas distintas. A Cooperativa também tem vinhos licorosos com diferentes indicações de idade.
Dica: maduro, com acidez crocante, com muito carácter e um tom salino no final. Belo exemplar açoriano, a revelar-se bom parceiro para a mesa.

Espumante Dinamite rosé 2020
Região: Bairrada
Produtor: Portugal Boutique Winery
Casta: Baga
Enologia: Ricardo Sarrazola
PVP: €16,50
O vinho estagiou 16 meses em cave antes de ser colocada a rolha. É um rosé de casta tinta. Trata-se de um Bruto zero, ou seja, sem açúcar residual.
Dica: muito boa harmonia entre a fruta do aroma e a secura da boca, com boa mousse e notas de brioche e frutos vermelhos. Bom para aperitivo.

Mainada tinto 2020
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Mainova
Casta: Baga
Enologia: António Maçanita/Sandra Sárria
PVP: €22,60
Depois da primeira edição deste produtor – gama Mainova – surge agora uma nova colecção, onde também surgem varietais de Touriga Nacional e Trincadeira Preta. É pouco intervencionado e por isso dizem que é «só vinho e mainada.»
Dica: muito aberto na cor, frutado discreto e grande facilidade de prova de boca. Um tinto ligeiro, é Baga mas não imita a Bairrada. Polivalente à mesa.

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