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Tanta novidade, tanta confusão

O assunto permite várias leituras

Os três vinhos que constituem a sugestão desta semana poderão ser novidade para os leitores. Esta frase poderia ser aqui escrita, digamos, semana sim semana não, tal a frequência com que as marcas novas chegam ao mercado. Para um consumidor que chega a uma garrafeira, depara-se com uma quantidade enorme de marcas que nunca ouviu falar, algo semelhante ao que nos pode acontecer a todos perante uma prateleira de vinhos de um qualquer free shop de aeroporto. Ao ver tanto vinho de marca que ignora, o comprador pode interrogar-se sobre o significado de tanta novidade: será que isto demonstra a vitalidade do sector? Ou será que o produtor não conseguiu vender o seu vinho e arranjou uma marca nova para tentar reposicionar-se no mercado? Estas e outras questões são válidas e possíveis. Acredito que nos cursos de marketing se fale no conceito de fidelização do consumidor a uma marca ou a um nome que lhe é familiar e aos quais atribui o papel de vinho-âncora. São estes os vinhos que, em momentos de dúvida, ajudam o consumidor na escolha, nomeadamente na restauração. É verdade que esses vinhos ainda existem, desde o Planalto ao Periquita, do Catarina ao Conde Vimioso mas a dispersão de marcas pode tornar tudo mais confuso. Alguns produtores são exímios criadores de marcas, apesar de toda a gente se queixar que é muito difícil registar uma marca nova ou um nome que ainda não tenha sido descoberto. O verdadeiro campeão é a Casa Santos Lima que tem mais de 100 marcas e, com muita frequência, chegam-nos mais rótulos novos para provar. Este produtor, que vende quase tudo no estrangeiro, cria marcas em função do importador mas, como pequenas quantidades também se vendem cá, é a grande confusão. A criação de marcas novas pode ser excessiva mas o seu contrário também pode ter leitura enviesada, ou seja, um produtor que não apresenta novidades pode dar uma ideia de imobilismo, de falta de criatividade, de dormir sobre os louros, enfim, não faltarão as vozes críticas. Mas as sugestões desta semana são boas novidades: juntar Arinto de duas regiões é sempre um desafio. Esta é provavelmente a mais importante casta branca portuguesa, espalhada pelos quatro cantos do país e tem a plasticidade de se adaptar a vários solos e climas; é assim uma aposta interessante, quem sabe a ser continuada noutros diálogos, com outras castas e outros produtores. O Bons Ares já traz consigo uma fama que remonta aos anos 90. Nunca teve denominação Douro porque sempre incorporou castas de fora, no caso, Cabernet Sauvignon nos tintos e Sauvignon Blanc nos brancos; este rosé (que é uma estreia) inclui Cabernet, a tal casta bordalesa que «vai a todas», quase sempre com bons resultados, como foi aqui o caso. O outro branco é de uma marca que os mais velhos recordarão como tendo sido da primeira geração de produtores-engarrafadores do Alentejo. Adormecida há muitos anos foi agora comprada pelo produtor da Herdade da Lisboa. Quanto à confusão do consumidor creio que ela vai continuar. A imprensa da especialidade tenta dar uma ajuda.

Sugestões da semana:
(Os preços foram indicados pelos produtores)

Entredocs
Região: s/ D.O.
Produtor: Alexandre Relvas (Herdade São Miguel) e José Luis Oliveira da Silva (Casa Santos Lima)
Casta: Arinto
Enologia: equipas das duas empresas
PVP: €18
A ideia aqui foi juntar dois vinhos de Arinto de regiões diferentes (Alentejo e Lisboa). O Arinto alentejano teve estágio em barrica. É uma celebração da amizade entre os dois produtores. Foram produzidas 2000 garrafas.
Dica: muito bem na cor, cheio no aroma, maduro mas sem perder a elegância, um Arinto muito aprimorado e que dá muito boa prova desde já. A beber e a guardar. À mesa com carnes brancas ou bacalhau à Braz.

Bons Ares rosé 2021
Região: Reg. Duriense
Produtor: Ramos Pinto
Castas: Cabernet Sauvignon, Tinta Barroca e Touriga Nacional
Enologia: João Luis Baptista
PVP: €14
A inclusão do Cabernet retira-lhe a designação Douro. Vindimado por parcela e vinificado em 90% no inox e o restante em barrica, sobre borras.
Dica: grande finesse aromática e prova de boca muito delicada, a pedir leves acepipes ou pratos de sashimi. Boa estreia neste Novo Mundo dos rosés.

Paço dos Infantes Verdelho branco 2020
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Herdade da Lisboa
Casta: Verdelho
Enologia: Ricardo Xarepe
PVP: €27
A marca é muito antiga e remonta aos anos 80 do século passado. Actualmente foi comprada pelo proprietário da Herdade da Lisboa que detém uma área de 100 ha de vinha na zona da Vidigueira. A esses somam-se mais 400 ha noutras zonas.
Dica: muito equilibrado, só tem 12º álcool, fino de aromas e a mostrar evidente aptidão gastronómica. Sem problemas para passar mais tempo em cave.

 

 

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