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A longa estrada do insucesso

Nos vinhos a coisa não está a correr bem

Já ouvimos por várias vezes a graçola em forma de adivinha: como é que se consegue arranjar uma pequena fortuna no sector do vinho? A resposta é desconcertante: começando com uma grande fortuna! Infelizmente esta graçola é muito mais verdade do que à partida se poderia pensar. Mas há outro caminho, com final idêntico mas com etapas tortuosas, embora sem a grande fortuna. Vamos à história. Por herança ou porque se agarrou uma boa oportunidade, compramos um terreno, uma quintarola ou até uma pequena propriedade. Com vinha, sem vinha, logo se vê. Com sorte, pensamos à partida, com uma casa velha usável ou em ruínas mas que merece restauro. É por aí que vamos começar, quem sabe até nos mudarmos mesmo para lá com família às costas. A reconstrução é uma tragédia em vários actos, com empreiteiros que não cumprem nem procedimentos nem prazos, com dificuldade em obter os materiais necessários. Enfim, vamos acreditar que tudo se leva a bom porto. Depois vem a vinha; uma confusão com as licenças, o que posso e não posso plantar, onde buscar as vides que, afinal, não têm a qualidade que o viveirista apregoava e a vinha vai ser atamancada logo de início. Deste calvário não se pode fugir porque só assim se tem acesso a apoios europeus. Depois há sempre a hipótese de um qualquer passaroco fazer por ali o ninho e lá vamos correr seca e Meca para conseguir que nos deixem fazer a vinha. Lá se conseguiu. Um destes dias, no Douro, um produtor disse-me que na reconstrução da casa (que estava em ruínas) e na plantação da vinha, uns bons hectares plantados de raiz, tinha gasto cerca de 1 milhão de euros. Vamos, ainda assim, pensar que sem luxos e conseguindo manter a adega da velha casa, lá vamos investir uns 300 000 euros. Os primeiros vinhos são realmente «vinhos de garagem», feitos sem condições técnicas ideais mas a aceitação foi boa, os vinhos vendem-se bem. Eis chegado o momento fatal: vamos fazer uma adega «que o crescimento já justifica». Ali, sem exagerar, lá vão de 500 até um milhão de euros. As vendas continuam bem mas para amortizar tanto investimento, a que se juntam as despesas do funcionamento, mais distribuidores, mais viagens para assegurar mercados, etc, etc, seria preciso escala e vender, ou muito – e aqui falamos de muitas centenas de milhar de garrafas -, ou muito caro. A primeira hipótese seria a mais viável mas, quando se produzem centenas de milhar de botelhas, temos de entrar na máquina trituradora das grandes superfícies e aí, quando precisávamos de vender caro para amortizar investimentos, obrigam-nos a vender a preços que são, muitas vezes, ofensivos. Como é preciso escoar stocks, não há volta a dar. E a história, que começou com uma ideia romântica de querer fazer um bom vinho, acaba da pior forma, com um cartaz de uma imobiliária à entrada da quinta anunciando que está à venda. Este fim trágico e imerecido espreita muitos dos produtores que conhecemos. Uns vão aguentando, aguentando, outros percebem que os preços dos vinhos nunca cobrirão os custos. E, não esqueçamos, há sempre um qualquer Fundo à espreita do desgraçado que tem a corda na garganta, que quis sonhar mas que a crua realidade não deixou. Os preços excessivamente caros conduzem à ruína da pequena produção. Há que ter noção…

Sugestões da semana:
(Os preços foram indicados pelos produtores)

Valle Pradinhos rosé 2021
Região: Trás-os-Montes
Produtor: Maria Antónia Pinto de Azevedo
Castas: Touriga Nacional (34%) e Tinta Roriz
Enologia: Rui Cunha
PVP: €9
Este rosé tem mantido uma boa consistência de qualidade ano após ano. É por isso uma aposta segura. Um bom vinho de verão. 15 400 garrafas produzidas.
Dica: delicado, levemente floral, seco e moderadamente alcoólico é um rosé para peixes pouco cozinhados ou marisco.

Quinta Monte d’Oiro rosé 2021
Região: Lisboa
Produtor: José Bento dos Santos
Casta: Syrah
Enologia: Graça Gonçalves
PVP: €10
As parcelas de vinha que dão origem a este rosé são conduzidas em modo bio e toda a vinificação aponta exactamente para a produção do rosé.
Dica: fino e elegante, de tonalidade salmonada, com acidez viva mas bem integrada; é um vinho polivalente, pode ser aperitivo (a solo) ou com acepipes.

Quinta do Côtto rosé 2021
Região: Douro
Produtor: Montez Champalimaud
Castas: Touriga Nacional e Tinta Roriz
Enologia: João Grave
PVP: €8,50
A quinta fica situada na zona mais a oeste da região, já muito próximo da zona dos Vinhos Verdes onde, de resto, este produtor também tem o Paço de Teixeiró.
Dica: rosado, fruta muito assente em frutos vermelhos, com frescura e elegância. A acidez mais marcada sugere-o sobretudo para a mesa, para saladas de peixe, por exemplo.

 

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