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Estamos a ficar mal habituados

Isto dos vinhos bons não é mania…

Devemos estar atentos. Logo que chegue a Primavera começarão a chegar ao mercado os novos brancos e rosés da colheita de 2021. Sendo que o acontecimento é anual e recorrente, pode perguntar-se o que tem, então, de especial que requeira atenção? É verdade que nos últimos anos é sempre assim mas a colheita, sobretudo de brancos, foi em 2021 algo de «anormalmente» bom. Há muito que nos habituámos a ouvir frases feitas sobre as virtudes da última colheita e por isso ficamos sempre com algum receio que não passe de uma jogada de marketing, uma vez que é aquela que vai ser preciso vender. Parece não ser o caso e a excelente colheita de 2021 veio confirmar que os brancos nacionais estão a atingir um patamar de excelência que muitos não acreditavam. É verdade que se vindima mais cedo – houve quem começasse em Julho – é verdade que as alterações climáticas não têm prejudicado os brancos como tem acontecido com os tintos mas também é certo que hoje sabemos muito mais de viticultura e enologia do que se sabia antigamente e isso reflecte-se na qualidade das uvas. A melhoria da qualidade da matéria-prima, uma melhor selecção das castas e apuramento técnico são as justificações das elevadas classificações que os bons vinhos têm actualmente. Dizer-se que um vinho tem 18 valores numa escala de 0 a 20 não é tão raro com o era há 30 anos. O problema, se é que se pode chamar problema, é que os vinhos mais baratos são tão bons que, para que se estabeleça uma hierarquia, os excelentes trepam na escala. Ao consumidor cabe sempre a última palavra na avaliação do vinho, sendo certo que o vinho já foi objecto de aprovação na Câmara de Provadores. Elas existem em todas as Denominações de Origem. Na essência as regiões foram criadas, recorde-se, para combater a fraude: foi assim com a demarcação da região do Douro no tempo de Pombal, foi assim nas demarcações francesas que maioritariamente tiveram lugar em 1936. Dizia-se então que a intenção era acabar com as mixordices dos lotes feitos de vinho francês e argelino que se faziam passar por Bordéus. Se pensarmos que as «novas» demarcações portuguesas só aconteceram depois de 1979, percebemos que, no tempo dos avós e dos velhinhos, nem tudo o que se fazia era bem feito e muito se misturava. E agora, apesar da supervisão, nem tudo o que é aprovado e reprovado nas câmaras de provadores é tolerável. Havendo duas categorias – DOP e IGP (Vinho Regional) – há que de uma vez por todas, assumir que qualquer vinho feito na região, com valores analíticos dentro da lei – tem direito à designação Regional, seja qual for a casta ou o método de produção. A assim não ser caímos num paternalismo intolerável de ser a Câmara a dizer o que é que o produtor pode, ou não, fazer. É por isto continuar assim que muitos produtores, aqui e em vários países (Espanha e França, por exemplo), estão a sair das denominações de origem e a fazer vinhos com total liberdade que depois, no caso português, levam apenas um selo IVV. É verdade que nos habituámos à qualidade mas temos também de tolerar a diferença.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Crasto Altitude 430 tinto 2019
Região: Douro
Produtor: Quinta do Crasto
Castas: Tinta Francisca (70%) e Touriga Nacional
Enologia: Manuel Lobo
PVP: €15
A casta Tinta Francisca esteve muitos anos «adormecida» mas conhece agora cada vez mais protagonismo. Vinificação com as películas apenas 4 dias para se obter um tinto mais aberto. Estágio em barrica usada. Graduação ajuizada de 12,5% de álcool.
Dica: tinto agradável, fresco, pouco concentrado, todo ele a pedir consumo imediato. Polivalência assegurada à mesa.

Iter Reserva tinto 2019
Região: Douro
Produtor: 2PR
Castas: Touriga Nacional (70%), Touriga Francesa e Tinta Roriz
Enologia: 2PR que inclui quatro enólogos
PVP: €10,50
2PR é uma empresa de consultoria, já com 20 anos, que trabalha com vários produtores. A marca Iter comemora agora 10 anos e teve uma edição especial de apenas 1300 garrafas, a €74 cada. Este Reserva 2019 (4000 garrafas) teve 18 meses de estágio em barrica usada.
Dica: excelente conjunto, grande harmonia de corpo e taninos, todo ele guloso e fresco. A consumir desde já.

Reguengos Garrafeira dos Sócios tinto 2017
Região: Alentejo (Reguengos)
Produtor: CARMIM
Castas: Alicante Bouschet, Aragonez e Touriga Nacional
Enologia: Rui Veladas/Tiago Garcia
PVP: €23
Esta marca é uma das mais clássicas do Alentejo, remontando aos anos 80 do século passado. O vinho estagia pelo menos 12 meses em barrica e mais um ano em garrafa.
Dica: maduro na fruta, quente na sensação que deixa na boca, é um tinto cheio, com volume mas sem cansar. Dá excelente prova desde já.

 

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