skip to Main Content

As barricas e a falta delas

Imprescindíveis ou descartáveis?

Os vinhos tintos que seleccionei esta semana têm um ponto em comum: não passaram por madeira, não estagiaram em barricas ou tonéis. Poder-se-ia perguntar: e então? Qual é o problema? Problema não é nenhum mas o facto de se mencionar no rótulo o termo Unoaked já pode querer dizer qualquer coisa. De facto, há uma ligação ancestral dos vinhos às madeiras, ora para serem transportados ora para se conservarem durante muito tempo. Com esse tempo de estágio esperava-se que o vinho tinto amaciasse, ficasse com taninos mais polidos e se tornasse mais bebível. Foi assim durante séculos. Por vezes, em zonas que originavam vinhos taninosos e/ou carrascões (Bairrada, Ribatejo) esse longo estágio acabava também por «limpar» muito os vinhos que assim, depois de estarem embotelhados, geravam pouco ou nenhum depósito no fundo da garrafa. Nas últimas três décadas a madeira e o vinho mudaram a relação: de tamanho e de idade. Dos grandes toneis o vinho passou a dar-se melhor em pipos de capacidade mais moderada, digamos dos 225 litros até aos 500. A opção por um tipo ou outro irá determinar muito o «peso» que a madeira e os seus aromas terão no vinho final. A regra pode enunciar-se assim: quanto menor for a capacidade da barrica nova, mais evidentes serão os aromas que incorporarão o vinho final. Estamos assim a falar de uma opção do produtor, do perfil que quer para o seu vinho e do estilo que entende poder ser mais bem aceite pelo mercado. A mesma barrica, na segunda utilização já transmite muito menos aromas, na terceira muito pouco e ao quarto ano fica pronta para ser revendida para então passar a ser «barrica usada», termo que também se encontra com frequência na informação dos vinhos. Estagia-se um vinho em barrica usada, não para ficar com aromas de madeira mas para amaciar taninos e provocar uma micro-oxigenação que acaba por arredondar também o vinho. Mais recentemente surgiu este modelo do unoaked, vinhos que estagiam apenas em inox e que, por via disso, se tornam muito bebíveis desde novos, são vinhos gulosos que se mostram muito bem à mesa. Mas então pode surgir uma nova questão: se ficam assim tão bons sem madeira, porque é que se estagiam vinhos em barrica nova ou usada? A resposta aqui prende-se com o perfil do próprio vinho que, se não vai à madeira, é porque na origem foi pouco extraído e macerado, tinha poucos taninos, era todo ele mais ligeiro. Neste assunto há uma constatação a fazer: não existe um grande, grande tinto do mundo, dos que são muito famosos, e por via disso muito caros, que não tenha tido estágio em madeira. Em brancos haverá alguns, em tintos serão tão raros que nem se fala deles. Os grandes tintos, pela estrutura que apresentam, concentração, extracção, taninos e acidez, precisam desse contacto com a madeira para crescerem e ganharem complexidade. Mas esses não são vinhos do quotidiano. Para nos alegrar no dia-a-dia, um bom tinto sem madeira é mesmo do melhor que há.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo Unoaked tinto 2019
Região: Douro
Produtor: Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo
Castas: Tinta Roriz, Touriga Nacional, Touriga Francesa e Tinto Cão
Enologia: Jorge Alves/Sónia Pereira
PVP: €10,20
Foram feitas 60 000 garrafas. A quinta situa-se no Cima Corgo, entre a Régua e o Pinhão.
Dica: um tinto muito alegre, na fruta, no corpo ligeiro, na intensa capacidade de se portar bem à mesa.

Combóio do Vesúvio Unoaked tinto 2018
Região: Douro
Produtor: Symington Family Estates
Castas: Tinta Roriz, Touriga Francesa, Touriga Nacional e 5% Tinta Barroca
Enologia: Charles Symington, Pedro Correia, Hugo Almeida
PVP: €11,99
Nova marca que sai desta quinta emblemática que em tempos pertenceu a Antónia Adelaide Ferreira e, desde 1989, pertence à família Symington.
Dica: de uma zona muito quente (Douro Superior) surge-nos este tinto aberto na cor e aroma, a pedir para ser consumido enquanto jovem. Polivalente à mesa.

Falua Reserva Unoaked tinto 2018
Região: Tejo
Produtor: Falua
Casta: Touriga Nacional
Enologia: Antonina Barbosa
PVP: €14,50
A Falua tem a sua base em Almeirim. Foi adquirida a J. Portugal Ramos pelo grupo francês Roullier. Trabalha com uvas próprias e adquiridas.
Dica: aroma vivo e muito fresco com abundantes notas de violetas. Taninos macios, acidez no ponto, a fruta a comandar a prova. A beber jovem, como compete.

 

This Post Has 0 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back To Top
×Close search
Search