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A revolução (tardia) dos espumantes e rosés

E do antigamente não há que ter saudades

Se quisermos fazer a história dos espumantes em Portugal teremos de recuar até finais do séc. XIX quando na Bairrada, no Douro e no Alentejo (aqui em Castelo de Vide) se fizeram as primeiras tentativas de espumantização. A inspiração veio de França e a nossa produção muito ficou a dever a José Maria Tavares da Silva, engenheiro, que em 1885 no Douro e por volta de 1890 na Bairrada deu os primeiros passos que visavam fazer um «espumoso» à moda francesa, a efectuar na Estação Anti-filoxérica da Régua e também na Escola Prática da Anadia. Entretanto tinha sido criada a Real Companhia Vinícola do Norte, dirigida pelo Visconde de Villar d’Allen e lá também se começaram a fazer os primeiros espumosos. Já no Alentejo foi João José Le Cocq que ensaiou os primeiros vinhos sob o nome Vinho do Prado. Começaram assim a desenhar-se as zonas onde, depois, mais forte se tornaria a produção, com grande destaque para a Bairrada, seguida de perto por Lamego. Como todos sabemos, a rolha do espumante não é o melhor vedante para termos vinho durante 50 anos; acaba, com o tempo, por ir mirrando e deixa sair o gás, perdendo-se o carácter essencial da bebida. Com isto quero dizer que não nos é possível hoje provar vinhos espumantes muito antigos, até para podermos ficar com uma noção do estilo. Tal só teria acontecido se, em vez da rolha de cortiça, se tivesse aposto na garrafa um vedante do tipo carica. Seguramente dessa forma poderíamos ter vinhos com 40 anos para provar. Agora, como também é sabido, mais de 7 a 10 anos depois do dégorgement e já estamos a entrar na zona de risco. O espumante/champanhe é assim uma bebida do curto e um pouquinho de médio prazo apenas. Sabemos que eram vinhos muito adocicados, provavelmente hoje sem mercado mas foi com eles que os nossos avós celebraram casamentos e baptizados. Mesmo em menus da primeira metade do séc. XX notamos que na lista dos vinhos a servir, o espumante vem sempre no final. A ideia actual de servir o vinho como aperitivo ficámo-la a dever aos franceses e hoje está cada vez mais divulgada. Curiosamente, casas como as Caves da Murganheira produziam muito mais espumante Meio-Seco (até 50 gr/açúcar por litro) do que Bruto mas actualmente esta última categoria é largamente maioritária. São mudanças dos hábitos que se aplaudem, tal como devemos louvar o facto de actualmente, e cada vez mais, o espumante ser utilizado para acompanhar a refeição. O trabalho do paring pode ser muito desafiante mas é seguramente uma tarefa que vale a pena. Os açúcares também diminuíram muito nos rosés que agora se apresentam com muito mais carácter gastronómico. O modelo Mateus continua, impávido e sereno, o seu caminho que traça há 70 anos, ainda que com menos gás e menos açúcar. E como na equipa vencedora não se mexe, é melhor não alterar nada já que os tais 20 milhões de garrafas fazem imensa falta nos balancetes, tal como dão muito arranjo às empresas fornecedoras que preparam o mosto que depois a Sogrape transforma em Mateus.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Adega Mãe Vinhas Velhas branco 2018
Região: Reg. Lisboa
Produtor: Adega Mãe
Casta: Vital
Enologia: Diogo Lopes/Anselmo Mendes
PVP: €20
Tem origem em vinhas velhas da serra de Montejunto. 3000 garrafas, fermentou em ovo de cimento e aí estagiou 10 meses.
Dica: carregado na cor, aroma muito original, maduro, afastado de modas mas seguramente com muita aptidão gastronómica. A conhecer sem hesitar.

Marquês de Borba Vinhas Velhas tinto 2019
Região: Alentejo
Produtor: J. Portugal Ramos
Castas: Alicante Bouschet, Aragonez, Castelão e Syrah
Enologia: João Portugal Ramos/Donzília Copeto
PVP: €14,95
Vinhas na zona de Estremoz. Uvas pisadas a pé em lagares de mármore. Estágio de 12 meses em barrica.
Dica: este tinto revela-se muito elegante, muito fino, com excelentes aromas, a mostrar um trabalho de adega com enorme cuidado. Sucesso assegurado.

Maçanita Reserva tinto 2019
Região: Douro
Produtor: Maçanita Vinhos
Castas: a base é Sousão com 64%, 30% Touriga Nacional e 6% castas misturadas.
Enologia: Joana e António Maçanita
PVP: €19,95
O vinho estagiou 18 meses em barrica (25% nova) e foram produzidas cerca de 9 000 garrafas.
Dica: denso na cor, aromas químicos e notas de frutos negros no aroma. Bom corpo e acidez, redondo e sem arestas. Para pratos fortes.

 

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