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Os brancos nunca sonhados

Um suplemento cheio de sugestões

Com o Expresso desta semana sai mais um suplemento Boa Cama Boa Mesa sobre vinhos. Neste caso o tema são os vinhos brancos. Fossem outros os tempos e os brancos não mereceriam suplemento próprio, esmagados que estavam pela preponderância no mercado e preferência do consumidor pelos tintos. Essa tendência para valorizar os tintos levou a que actualmente sejam muito poucos os produtores em que os brancos sejam mais caros que os tintos. A razão? Puro preconceito! Em boa verdade, actualmente é mais caro fazer branco e, do ponto de vista do equipamento necessário, é provável que custe mais produzir um grande vinho branco se comparado com um grande tinto. É assim difícil entender o porquê da discriminação. É bom relembrar que a região do Tejo, por exemplo, sempre produziu mais branco do que tinto, situação que ainda hoje se mantém. É por lá o reino da Fernão Pires que, a solo ou acompanhada sobretudo pela Arinto, reina há muitos anos. Terrenos férteis da lezíria, bom clima e muita água «empurram» a produção para níveis completamente inusuais e impensáveis noutras regiões. Não admira assim que na região existissem tantas casas produtoras a fazer milhões de litros; era a época em que se abastecia também os mercados coloniais com vinho a granel e o importante era produzir muito. Em regiões como a Bairrada e o Dão sempre houve bons vinhos brancos, muitos deles com surpreendente longevidade. Não foi há muitos anos que bebi um Aliança branco de 1949, um Aguieira de 1945 e há pouco mais de um mês um Aliança Garrafeira de 63. Tudo vinhos notáveis. Todos brancos. Depois de séculos a produzir mais tintos do que brancos, só a partir da campanha de 1992/93 é que a região dos Vinhos Verdes passou a dar primazia aos brancos, situação que se mantém até hoje. É verdade que também temos Bucelas, a micro-região onde só os brancos têm direito à Denominação de Origem. Curiosamente ambas (Verdes e Bucelas) foram incluídas no «pacote» das primeiras demarcações que se seguiram, já no final da primeira década do séc. XX, à demarcação do Douro. Por falar em Douro, é obrigatório referir a mudança de paradigma que a região conheceu a partir dos anos 90. Foi então que a curiosidade e o gosto – honra seja feita a Dirk Niepoort neste movimento – levaram vários produtores a «desviar» uvas brancas que teriam como destino o Porto branco para as transformar em DOC Douro. Esse movimento, que não parou até hoje, veio mostrar que afinal, mesmo sendo uma região de clima quente, a enorme diversidade geográfica (altitude) e de orientação solar das parcelas, era possível fazer grandes brancos. E se são grandes! São mesmo dos melhores que temos no país. E dali há uma lição a aprender, algo que nos chegou via relógios Patek Philippe e que se aplica às vinhas velhas: não somos donos, apenas garantimos que chegam à geração seguinte. Lição a ensinar urgentemente aos fanáticos dos balancetes e da folha Excel…

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Barão do Hospital Alvarinho branco 2020
Região: Monção e Melgaço
Produtor: Falua
Casta: Alvarinho
Enologia: Antonina Barbosa
PVP: €15
As uvas são provenientes de uma propriedade murada de 25 ha em Monção, em tempos pertença das Ordem dos Hospitalários. Com o mesmo nome também existe um branco da casta Loureiro. A aquisição pela Falua foi recente.
Dica: um Alvarinho fresco, jovem, vibrante e de excelente acidez. Tem tudo para dar boa prova agora e pode ser curioso ver como evolui em cave.

Esporão Private Selection Garrafeira branco 2019
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Esporão
Casta: Sémillon
Enologia: David Baverstock/Sandra Alves
PVP: €35
Vinha de 23 anos em solos argilosos, a casta (no Douro conhecida como Boal) é do sul da França e muito usada em Sauternes. A viticultura já tem certificação bio. O vinho teve 6 meses de estágio em barrica e outros 6 em garrafa e daí a designação Garrafeira.
Dica: carregado na cor, aroma maduro e cheio, untuoso na boca mas com excelente acidez. Vinho de Outono/Inverno, para queijos de pasta mole, por exemplo.

Encosta das Perdizes Assinatura tinto 2015
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Encosta das Perdizes
Castas: Aragonez, Trincadeira e Alicante Bouschet
Enologia: Paulo Laureano
PVP: €19,50
Vinhas implantadas em terrenos de xisto. O vinho teve 18 meses de estágio em barrica nova. 1600 garrafas produzidas.
Dica: belo exemplar do alentejano típico, quente, maduro mas que não cansa derivado à óptima acidez. Um tinto outonal.

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