skip to Main Content

Pelo andar da carruagem…

Contas à vindima com surpresas

É claro que ainda é cedo mas muita coisa já se pode dizer sobre a vindima deste ano. Afirmar que foi esquisita é pouco, é melhor declarar que teve a «anormalidade costumeira» em que já ninguém sabe exactamente o que quer dizer uma «vindima normal». Já há que tempos que não chove quando devia, não faz calor quando é suposto, o clima não dá descanso a ninguém nas vinhas. É verdade que muitas delas conseguem tornear essas anormalidades e continuam a produzir boas uvas. Sabemos que uma vinha mais velha, de raízes mais profundas, está mais defendida das agruras do clima uma vez que tem, lá bem fundo o alimento e a frescura que lhe permitem, por exemplo, continuar a «trabalhar» quando, cá fora, está um calor violento. É essa melhor defesa que justifica o apreço pelas vinhas de mais idade; normalmente menos produtivas mas capazes de gerar vinhos de maior complexidade. Já em tempos escrevi e repito: não conheço um vinho de classe mundial, e como tal reconhecido por todos, que tenha origem numa vinha de 4 ou 5 anos. A tal «classe mundial» só é reconhecida com a consistência de qualidade, com a repetida excelência sempre distinguível em prova. Por essa razão também entre nós os melhores vinhos vêm das vinhas mais velhas, com algumas honrosas excepções. Este ano o clima favoreceu os brancos e por isso todos estão muito entusiasmados com o resultado da vindima. O que é um bom branco na vindima? Bom teor de açúcar mas sem exagero (o Agosto ameno ajudou imenso), boa acidez, bons compostos fenólicos. Tudo isso se conseguiu com a ajuda do céu e, assim, é provável que, daqui a ano e meio ou dois anos, estejamos a comemorar uma grande colheita. Nas zonas do costume (Bairrada, Alto Alentejo, Lisboa e Setúbal) mas também no Douro onde foi possível colher uvas em perfeito estado sanitário obtiveram-se bons brancos. O Douro teve este tesouro escondido por tempo demais. Outrora usavam-se as uvas brancas sobretudo para o Vinho do Porto e muito boas uvas iam «morrer» em Vinho do Porto branco Seco, uma categoria muito desconsiderada já que os vinhos eram usados em cocktails, com água tónica e limão. Ao desviar uvas brancas para fazer DOC Douro, os durienses depararam-se com um maná que não está ainda todo à vista. Por isso, sem qualquer favor, uma lista que contemple os melhores vinhos brancos do país irá incluir muitos do Douro. Já no que respeita a tintos somos obrigados a cumprir o ditado: só após o lavar dos cestos, e caso o clima favoreça o final da vindima com dias secos e algum calor, será possível ver o que se salvou. Uma das castas que é a espinha dorsal dos tintos – a Touriga Francesa – tem este ano uma das piores prestações de que há memória e por isso vai ser difícil pensar em vinhos do Porto de gama alta. Não que a região tenha muito que se queixar, já que a década de 2010 a 2020 foi generosa e todos os anos se fizeram bons vintages. Andamos assim, sempre a olhar para o céu. Alguns enólogos, entretanto, estarão a preparar o discurso do «ano desafiante» e outros adjectivos usados para contornar as agruras climáticas. Vai ser preciso, como dizia o poeta, ter alguma fézada para aguentar até ao fim.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Vinha de Saturno tinto 2017
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Herdade Monte da Cal
Castas: Touriga Nacional (60%) & Syrah
Enologia: Osvaldo Amado
PVP: €20
6000 garrafas produzidas. 12 meses estágio em barrica. Vinhas no Alto Alentejo. Duas castas da moda na região alentejana.
Dica: combinação feliz, com um tinto aqui muito harmonioso e que não cansa, com a fruta a e barrica em perfeito diálogo. A beber desde já sem hesitar.

Val Moreira Reserva branco 2019
Região: Douro
Produtor: XVinus (hotéis Vila Galé)
Castas: vinhas velhas em altitude, no Douro Superior e um pouco de Alvarinho.
Enologia: Ricardo Gomes
PVP: €21
Fermentou em barricas de 500 litros. Estagiou depois nas barricas sobre borras durante 9 meses.
Dica: austero, volumoso, com a boa acidez a alegrar o conjunto. Já perto do seu melhor momento de prova. Barrica bem integrada, resulta em boa harmonia.

Valle Pradinhos Reserva branco 2020
Região: Reg. Transmontano
Produtor: Maria Antónia Pinto Azevedo
Castas: Gewürztraminer, Riesling e Malvasia Fina
Enologia: Rui Cunha
PVP: €17,50
A marca é muito antiga na região transmontana e este branco há décadas que apresenta este perfil com duas castas estrangeiras em diálogo com a Malvasia. Caso raro de um produtor em que o branco é mais caro que o tinto.
Dica: sempre subtil, com aromas delicados onde as rosas e as frutas brancas marcam presença. Um branco que merece sempre a guarda de algumas garrafas em cave.

 

This Post Has 0 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back To Top
×Close search
Search