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Notícias de um país a derreter

O calor e os seus efeitos

Todos sabemos que sem calor não há uvas maduras. As vinhas, ao contrário dos seres humanos, gostam mais de moderação do que de extremismos. Quando ouvimos um produtor dizer que o ano correu bem isso por norma indica-nos que choveu na altura certa, fez calor quando era suposto e/ou o verão foi ameno sem sobressaltos de temperaturas. É aqui que entramos no ponto-chave: uma boa maturação das uvas quer calor mas quer também noites frescas que possam equilibrar os calores diurnos ou, em alternativa, uma temperatura sem excessos que permita a lenta assimilação do açúcar nos bagos. Há parcelas de vinha bafejadas pela orografia, nomeadamente as que ficam em maior altitude onde este tema do arrefecimento nocturno é uma mais-valia, ou outras onde chegam brisas marítimas mais frescas e também as localizadas em encostas viradas a norte. Como já vimos, este ano muitos produtores já vindimaram antes da vaga de calor e estão livres de perigo. Alguns aproveitaram mesmo para fazer a chamada «monda em verde», uma prática que pode ter dupla justificação: cortar os excessos de carga na cepa (se tal se verificar) e usar esses cachos para fazer uma base de espumante. No entanto regiões há em que a vindima excessivamente precoce – com medo dos calores ou das chuvas do equinócio – costuma gerar vinhos menos equilibrados e, por via disso, pouco interessantes. Há ainda uma outra hipótese de sobrevivência das uvas ao calor, uma vez que um Setembro sem chuva pode criar, porque as uvas não apodreceram com a chuva, boas condições para se fazer um Colheita Tardia ou – hipótese mais difícil e sempre imprevisível – fazer um vinho atacado de podridão nobre. No Colheita Tardia temos sempre um teor de açúcar muito elevado nos bagos o que gera um vinho doce; os vinhos de podridão, também doces, resultam de vindimas muito tardias, não raramente em finais de Outubro ou Novembro. Nessa altura já os bagos estão mirrados e com fungos à volta do bago (botrytis); essa podridão, se for da boa, consegue o milagre de originar um branco doce com muito carácter. Mas o tal Setembro seco (a existir…) permite ainda que regiões onde há castas tardias, como a Baga na Bairrada ou a Touriga Francesa no Douro, amadureçam bem e com muita saúde. As alterações climáticas agravam a situação da meteorologia e neste ano de 2021 já há regiões francesas a lamentarem-se dos efeitos devastadores das geadas primaveris que vão originar perdas muito significativas em zonas como a Borgonha ou Bordéus. Já ninguém sabe exactamente o que é que quer dizer a frase «um ano normal», mas também não nos devemos esquecer que as variações climáticas são um fenómeno antigo e habitual. A família Symington tem desde sempre os registos da evolução do clima no Douro durante o ano e até à vindima. Ali se percebe, ano após ano, que não há dois anos seguidos iguais e que os grandes momentos, como por cá aconteceu em 2011, são situações ocasionais. Mas não nos lamentemos em excesso que, no caso particular do Vinho do Porto, a década passada foi fabulosa, como nunca se tinha visto. Não exageremos no pessimismo, portanto.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Vinha do Altar Reserva branco 2020
Região: Douro
Produtor: Wine & Soul
Castas: Viosinho, Gouveio e Arinto
Enologia: Wine & Soul
PVP: €9
A vinha, com 2,5 hectares de área, localiza-se em Fermentões, a 600 m de altitude e com exposição Norte. Era uma propriedade da família Serôdio. É a segunda edição deste branco.
Dica: grande harmonia entre aroma e sabor, num branco muito gastronómico, polido e com uma óptima acidez que lhe conserva e salienta a frescura.

Espumante Quinta do Poço do Lobo Bruto Natural 2017
Região: Baga / Bairrada
Produtor: Caves São João
Casta: Baga
Enologia: José Carvalheira
PVP: €11
É um espumante branco feito de casta tinta. Sendo Bruto Natural, é o mais seco dos espumantes. A quinta produz outro espumante com outras castas.
Dica: muito atractivo logo no aroma, bem seco, é um espumante para a mesa, para peixe e marisco. Muito boa relação qualidade/preço.

Dona Matilde Reserva tinto 2017
Região: Douro
Produtor: Quinta D. Matilde
Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa e vinhas velhas onde domina a Tinta Amarela.
Enologia: João Piçarra
PVP: €20
A quinta fica localizada entre a Régua e o Pinhão. Sempre pertenceu à família Barros. Com a venda da empresa Barros à Sogevinus a quinta ficou na família.
Dica: uvas pisadas em lagar e estágio em barrica geraram um tinto robusto, com muita vida em cave. Melhor com pratos bem temperados. Deve ser decantado em virtude do depósito que apresenta na garrafa.

 

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