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A recta final é agora

Começou a contagem decrescente para a vindima

À data que escrevo este texto o título já não faz sentido para muitos produtores. Em terras do sul, quer do Alentejo quer do Algarve, as vindimas já começaram, nalguns casos ainda no mês de Julho. Esta antecipação não tem só a ver com as alterações climáticas. De facto, a pressa em vindimar prende-se também com o perfil de vinhos que queremos obter, agora que estão em voga vinhos de menor teor alcoólico e maior acidez. O calor estival é precioso para as uvas porque provoca a diminuição da acidez nos bagos e faz aumentar os teores de açúcar. Ora, como estas duas variáveis funcionam em sentidos opostos, quanto mais cedo se vindimar mais facilmente se obtêm mostos com muita acidez e menor potencial alcoólico, ou seja, iremos produzir vinhos que vão ao encontro dos ventos da moda. O tema é, no entanto, mais complexo do que se possa imaginar. Se falarmos hoje com qualquer produtor, sobretudo se for um pequeno/médio produtor-engarrafador, vamos ouvir sempre a mesma lengalenga que corresponde a um objectivo primordial: «eu quero que os meus vinhos expressem o local de onde vêm as uvas, as castas, o terroir, a região!» é bonito de ouvir e ficamos sensibilizados mas, depois, o que encontramos? Na ânsia de vindimar cedo para ter mais acidez muitos produtores, nomeadamente os chamados «alternativos» porque querem fazer coisas diferentes, esses produtores estão a vindimar cedo de mais, ou seja, antes das uvas atingirem a maturação. A regra de ouro da enologia expressa-se assim: é preciso uvas maduras para se fazer bom vinho. Ora, se vindimamos cedo de mais, estamos a fazer um vinho que está muito longe de expressar o local de onde vem, o solo, o clima ou a casta. É neste erro que muitos dos «alternativos» caem, mesmo entrando em contradição com as regras dos gurus que os inspiram. Infelizmente a seguir a este erro vem logo outro: para se obter um vinho mais aberto, as uvas, nomeadamente as tintas, são pouco maceradas e o resultado é, apenas e só, um solução hidro-alcoólica, um vinheco ligeiro, sem corpo, sem alma, que tanto podia ter sido feito na Bairrada, no Douro ou na Roménia. O mais curioso é que, depois, alguma crítica e winewriters internacionais se entretêm, todos contentes, a afirmar que «o que são defeitos para uns, são virtudes para outros», sustentando assim, e aplaudindo, quem faz vinho descuidadamente ou porque não tem conhecimentos técnicos para isso ou porque essa falta de conhecimentos é a suficiente para se manter no clube dos «alternativos». E acabemos de vez com a panaceia do «terroir que faz o vinho»; o terroir produz uvas e quem faz o vinho é o homem. Uns sabem fazê-lo bem e batalham e ensaiam vezes sem conta para, também eles, fazerem vinhos diferentes. Outros acreditam que o vinho se faz por si, sem intervenção, esquecendo que a não intervenção é muito mais sintoma de ignorância do que de sapiência e forma segura de fazer vinhos sem futuro. Mais uma vez, na vindima que se aproxima, voltaremos a ter estas duas visões do mundo em confronto. Vinhos com menos grau e mais acidez? Claro que sim mas… é preciso saber fazê-los.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Esporão Colheita branco 2020
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Esporão
Castas: Antão Vaz, Viosinho, Alvarinho
Enologia: Sandra Alves, David Baverstock
PVP: €10
Viticultura e enologia bio. Mosto fermentado em ovos de cimento e com posterior estágio sobre as borras finas.
Dica: aroma maduro com fruta de grande qualidade e pureza, é um branco com muita personalidade, a merecer prova atenta.

João Portugal Ramos Alvarinho branco 2020
Região: Monção e Melgaço
Produtor: J. Portugal Ramos
Casta: Alvarinho
Enologia: Antonina Barbosa
PVP: €9,99
As vinhas estão situadas no coração da região, implantadas em solos graníticos. O vinho é feito em inox e tem uma longevidade esperada de 10 ou mais anos.
Dica: límpido e fino de aromas, sobressai a excelente acidez que lhe dá muita vida. Um belo exemplar dos Alvarinho daquela região minhota.

Vicentino Naked rosé 2019
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Frupor
Casta: Pinot Noir
Enologia: Bernardo Cabral
PVP: €9,75
Um vinho da costa alentejana, vinhas localizadas perto do mar. O termo vinho atlântico tem assim todo o cabimento. O termo naked aqui faz alusão à forma simples como foi feito sem artifícios técnicos de adega.
Dica: vinho de convívio ajudado pela baixa graduação (11,5%). Culinária oriental, saladas ou marisco em cozinhado simples poderão ser boas ligações.

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