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A cidade e os seus vinhos

Já tínhamos vinha, agora temos adega

 Não é habitual encontrarmos vinhas no interior das cidades. A cavalgada da construção toma conta de tudo e a ocupação de espaços vazios nunca aponta para a implantação de vinhas. Os casos excepcionais são isso mesmo, ora com uma carga histórica forte – caso das vinhas de Carcavelos que já referimos há tempos nestas crónicas – e que estão no meio do tecido urbano de Oeiras e Cascais, ora com um carácter pedagógico, que é o caso das vinhas da Tapada da Ajuda e que servem de suporte para os estudos de viticultura e enologia do ISA (Instituto Superior de Agronomia).

Lisboa já teve muitas vinhas mas isso é história passada. Uma das últimas ficava na quinta da Francelha, ali ao lado do aeroporto de Lisboa mas os últimos vinhos que ali foram feitos remontam à década de 50 do século passado. Actualmente, além dessa vinha da Tapada que já existe há muitos anos, existe a vinha do aeroporto de Lisboa, plantada e explorada pela Casa Santos Lima. São 2,3 hectares ali ao lado da rotunda do relógio e que estão já em plena produção. Por lá existe a branca Arinto e as tintas Tinta Roriz e Touriga Nacional.

Segundo nos disse o produtor José Luis Oliveira da Silva, este projecto, que tem o apoio da Câmara de Lisboa, poderá estender-se a outras parcelas da cidade assim como a duas zonas limítrofes que hoje só conhecemos como bairros habitacionais. Os vinhos são comercializados com o nome Corvos de Lisboa e as garrafas que correspondem mesmo a vinhos feitos com uvas dali estão devidamente numeradas. Menos habitual ainda é a existência de uma adega, daí a originalidade da Adega de Belém, localizada bem perto da escola Marquês de Pombal, em Belém. Começou por ser mesmo um «vinho de garagem» mas alargou-se e num armazém deu para fazer tudo: ter cubas e barricas, ter um espaço para receber pessoas, vender vinho e dar provas, servir petiscos e ter um cão como companhia. É um projecto de dois enólogos, ela portuguesa, ele alemão e as uvas têm sido compradas em locais diferentes, na região de Lisboa – quer em Alenquer (quinta do Carneiro) quer no ISA -, e em Setúbal.

Brevemente também terão uvas de uma vinha em Carcavelos mas para fazer vinho tranquilo. Fazem oito tipos diferentes de vinho num total de 12 000 garrafas. As vendas on-line e alguma exportação ajudam ao negócio que, disseram-nos, vai alargar-se também a um espumante feito com Encruzado; já está em estágio e lá mais para o fim do ano será feito o dégorgement de parte do stock. A visita e a conversa à volta do negócio permite concluir que não é tão difícil assim ter uma adega em meio urbano. O que não faltam são armazéns, de variadas dimensões, que se podem adaptar facilmente a uma adega. Mais do que o espaço ou o equipamento, o que é preciso mesmo é espírito de aventura e boas connections, ter acesso fácil a mercados de nicho, redes sociais, clubes, alguma restauração mais vocacionada para vinhos que sejam desafiantes e afastados do grande consumo. Aqui privilegia-se sempre o contacto pessoal e por isso mesmo a porta está sempre aberta. Quem diria, hã?

Sugestões da semana:

(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

 Kopke Winemaker’s Collection rosé 2020

Região: Douro

Produtor: Sogevinus

Casta: Tinto Cão

Enologia: Ricardo Macedo

PVP: €24

Esta é uma colecção de luxo, sempre editada em quantidades limitadas (um pouco mais de 5000 garrafas) e também comercializada em magnum. Cerca de 20% do mosto fermentou em barrica usada.

Dica: muito fino, muito elegante, suave nos aromas de frutos vermelhos, será sempre um aperitivo perfeito para acompanhar acepipes de peixes fumados ou crus. Sem acompanhamento pode tornar-se complicado, já que tem 13% de álcool.

Adega de Belém Lilli Cellar Dog Selection tinto 2020

Região: Reg. Lisboa

Produtor: Adega de Belém

Casta: Castelão

Enologia: Moreira & Picard

PVP: €7,50

Junta uvas de Alenquer com vinho adquirido em Palmela. Após a fermentação estagiou 12 meses em barricas usadas. Fizeram-se 880 garrafas.

Dica: muito bem conseguido, elegante, fino de taninos, polido e atractivo. Seguramente um bom companheiro da mesa.

Niepoort Tinta Amarela tinto 2016

Região: Douro

Produtor: Niepoort

Casta: Tinta Amarela (Trincadeira)

Enologia: equipa Niepoort

PVP: €29,70

Esta é uma casta muito abundante no Douro mas são poucos os varietais de DOC Douro. Esta foi a primeira edição da Niepoort.

Dica: colhido cedo e pouco macerado resultou com pouca cor, ligeiro no corpo e no álcool (11,5%). Não tem muito a ver com a casta ou a região. É mais uma aventura Niepoort.

 

 

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