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Quando o vinho cai na rede

Os maus efeitos das redes sociais

Longe vai o tempo em que para se saber qualquer coisa sobre um vinho era preciso pesquisar, ir aos livros à procura de informação, falar com pessoas, ouvir o que alguém tinha a dizer sobre o assunto. Agora não precisamos de saber nada porque sabemos onde está todo o conhecimento. Com um simples clic entramos no mundo da sabedoria onde a informação, boa e má, está depositada. Acessível em qualquer momento, a Net tira-nos todas as dúvidas e a Wikipédia tem lá tudo o que julgamos necessário para ficarmos por dentro de qualquer tema.

Um outro clic num código de barras de novo tipo – o QR Code – elucida-nos sobre o resto que nos faltava. Já não precisamos sequer de saber o endereço electrónico para estarmos por dentro de tudo o que vale a pena. Além deste saber, digamos genérico, somos depois bombardeados com o saber de uma nova classe de gente toda ela muito especializada, os influencers. Não precisam de saber rigorosamente nada sobre o assunto mas se aparecerem nas redes sociais a dizer que «este tinto é bom» parece que o vinho se vende mais. Há assim uma perfeita harmonia entre a ignorância do influenciador e a ingenuidade/parolice do comprador. O assunto adquiriu infelizmente foros de escândalo quando tocou de perto algumas das marcas mais famosas de Bordéus. Explicação rápida: a região de Saint-Émilion tem uma classificação dos châteaux em três níveis de Cru Classé: Grand Cru Classé A (a mais elevada, actualmente com 4 marcas), Prémier Grand Cru Classé B (actualmente são 14) e uma terceira, Grand Cru Classé (são 64). Foi criada em 1955 e é revista, em média de 10 em 10 anos, após prova dos vinhos da década e a próxima será em 2022.

30Nas primeiras décadas só duas propriedades tinham a mais alta classificação: Cheval Blanc e Ausone; em 2012 foram promovidos de B a A, Pavie e Angélus. O escândalo está instalado porque Cheval Blanc e Ausone resolveram abandonar o sistema classificativo em virtude de um dos factores que passará a ser tido em conta na avaliação será, exactamente, as apreciações nas redes sociais, onde os tais influencers são reis. Se a controvérsia já era grande quando havia subidas e descidas na classificação (muitas queixas acabaram em tribunal), agora os mais clássicos de todos e que nunca deixaram de ter a classificação A, batem com a porta e dizem adeus. Tive o privilégio de visitar estas duas propriedades e provar os vinhos; tenho para mim que estão de tal maneira acima da concorrência que não precisam da classificações para nada. O nome Ausone (€680 o 2018) e Cheval Blanc (€580 o 2018) valem por si, pela história que têm e pela tremenda consistência de qualidade que demonstraram nos últimos 100 anos. É assim que se constrói marca, não por uma qualquer epifania saída do nada. Isto pode ser (até já estou a aplaudir…) o começo de algumas mudanças nas hierarquias bordalesas. Admito que possa haver sangue e muitas zangas mas a prova dos vinhos deverá continuar a ser o factor principal. Os influencers que se fiquem no seu pequeno mundo onde outros, ainda mais pequenos, lhes dizem que são grandes.

 

Sugestões da semana:

(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Casa da Passarella O Fugitivo Bastardo 2018

Região: Dão

Produtor: Casa da Passarella

Casta: Bastardo

Enologia: Paulo Nunes

PVP: €29,90

A casta é menos habitual no Dão e é mais uma que gera vinhos com pouca cor. Este tem origem em vinhas velhas e foram feitas 1320 garrafas.

Dica: dominam as notas vegetais, é intensamente gastronómico e precisa de ser consumido mais fresco que os outros tintos.

 

Ilha Blanc de Noirs branco 2019

Região: DOP Madeirense

Produtor: DS Wines

Casta: Tinta Negra

Enologia: Diana Silva

PVP: €19,90

É um branco feito a partir de uvas tintas e daí a designação Blanc de Noirs. No portefólio existe também um tinto e um branco de Verdelho.

Dica: difícil de adivinhar a origem «tinta», temos um vinho muito bem organizado e de perfeita acidez, a transmitir o lado marítimo que sempre marca estes vinhos.

 

Quinta da Fonte Souto rosé 2020

Região: Alentejo – Portalegre

Produtor: Quinta da Fonte Souto

Casta: Aragonez

Enologia: José Daniel Soares

PVP: €12,60

É a primeira edição de um rosé desta propriedade que pertence à família Symington. Edição limitada a 1500 garrafas.

Dica: muito rico de aromas, com fruta de caroço e notas florais. Também na boca se mostra muito bem, muito elegante. Perfeito para a mesa ou para a esplanada.

 

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