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Questões cromáticas que nos arreliam

Afinal a cor conta, ou não?

Este é um tema que está conotado sobretudo com os vinhos tintos. Nestes, a maior ou menor intensidade de cor ganha especial relevância, sobretudo na escolha dos consumidores e na apreciação dos críticos. Comecemos pelo princípio: as diferentes variedades de uva tinta têm na película a fonte da sua cor; é aí que se situam os pigmentos que darão cor aos tintos. Por essa razão se fermentam as películas com o mosto, para que a cor passe então também, pela acção da temperatura da fermentação, para o vinho final. A intensidade dessa cor avalia-se, há uma escala de medida e sabemos assim que há variedades com pouca capacidade corante e outras com mais. A cor não é, no entanto, um indicador de qualidade. Na vinha e na adega pode-se, depois, aprofundar ou «dar a volta» a isto. Desta forma, se se macerar muito as uvas vamos obter mais cor mas se, ao contrário, tivermos as películas pouco tempo em contacto com o mosto obtemos um vinho mais aberto e menos corado. São opções que também se ligam com as modas; há duas décadas estavam na moda os vinhos muito carregados de cor, desprezando-se então as castas pouco corantes ou usando-as exclusivamente para fazer rosé. Actualmente há um renascido interesse pelas uvas que geram vinhos abertos e nada carregados. Vá lá o produtor saber que decisão deve tomar: se arrancou vinhas porque tinha castas que não davam cor, hoje deve estar arrependido já que a agulha da moda virou de sentido. Os vinhos que seleccionei hoje têm essa característica, foram feitos com castas pouco corantes. Temos, no entanto, de ter um facto presente: nas provas cegas ou nos concursos onde lado a lado surgem vinhos com muita concentração e outros delgados de cor, os «carregados» ganham sempre aos «delgados». É também por isso que os produtores, já avisados, não enviam este tipo de vinhos para certames desse tipo. Estes são vinhos que precisam de enquadramento e de ser explicados para que sejam mais bem apreciados. O tinto Pardusco retoma aqui uma das castas que se usavam antigamente em Monção e que deram fama aos vinhos da região, séculos antes de se falar em Alvarinho. O tinto de Campolargo traz também a público a casta Alvarelhão que é das mais antigas que temos em Portugal e que, exactamente por gerar vinhos pouco corados, foi caindo no esquecimento. Com ela, o enólogo/produtor Anselmo Mendes faz também um espumante em Monção. O terceiro vinho é feito com a casta Marufo, assim chamada na Beira Interior e que no Douro é mais conhecida como Mourisco. Apesar do mérito de ser a progenitora da Touriga Nacional, a Mourisco esteve nas ruas da amargura já que ninguém a queria. Hoje ganha nova vida exactamente pela mesma razão que outrora foi desprezada: gera vinhos com pouca cor e pouca concentração. São assim as modas do vinho mas, devo confessar, gosto desta nova moda. Os vinhos ganham imenso na vertente gastronómica, são grandes companheiros da mesa e… não cansam! Vamos a eles enquanto os ventos não mudam.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Campolargo Alvarelhão tinto 2019
Região: Sem D. O.
Produtor: Manuel dos santos Campolargo, Herdeiros
Casta: Alvarelhão
Enologia: Raquel Carvalho
PVP: €17
O vinho é feito na Bairrada mas não tem Denominação de Origem, apenas um número atribuído pelo IVV. Produziram-se 800 garrafas.
Dica: ambiente aromático a privilegiar o vegetal seco, muito boa acidez, leveza evidente.

Proibido Marufo tinto 2020
Região: Douro
Produtor: Márcio Lopes
Casta: Marufo
Enologia: Márcio Lopes
PVP: €20
Feito em lagar e com longa maceração pós-fermentativa para se conseguir extrair mais compostos de cor. Merece decantação prévia para arejar o vinho.
Dica: tem de ser consumido mais fresco do que os restantes tintos e não pede pratos pesados. Um tinto alegre e bem-disposto, cheio de frutos vermelhos, groselhas e morangos.

Pardusco Private tinto 2017
Região: Monção e Melgaço
Produtor: Anselmo Mendes
Casta: Alvarelhão
Enologia: Anselmo Mendes
PVP: €20
Nesta região minhota a casta era também conhecida por Brancelho. Fizeram-se 5000 garrafas. O vinho teve um estágio de 24 meses em barricas usadas. Era com o nome Pardusco que eram conhecidos os tintos de Monção.
Dica: temperatura mais baixa de serviço (12/13º) e pratos leves de carne ou peixe tornarão a prova um prazer.

 

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