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A tortuosa estrada do sucesso

Há quem lhe chame o caminho das pedras…

Quando um produtor coloca o seu vinho no mercado, a primeira alegria que tem é quando percebe que o consumidor comprou e voltou para comprar mais garrafas. Esta satisfação não está necessariamente relacionada com o preço a que o produtor vende. Esse, o preço, é a segunda alegria. A primeira gera fidelização; o consumidor gostou e ficou com vontade de voltar a provar. Aos poucos, o nome do produtor passa a funcionar como referência para quem compra e isso é uma segurança, um porto-seguro que o ajuda nos momentos de dúvida (e isto também acontece na restauração) quando, perante uma carta com nomes desconhecidos, descobrimos o tal, o que gostamos e que sabemos não nos vai desapontar. Fala-se então de qualidade percebida. O produtor até pode ir subindo o preço ou mesmo arriscar marcas novas que o consumidor, já fiel, aceita porque acredita. O preço caro, como ponto de partida, pode ser ilusório; o consumidor compra por curiosidade, arriscando um valor alto por algo que não conhece mas nada garante que volte a comprar. É por isto que, quando encontramos vinhos muito caros e que nos dizem que se venderam, fica sempre a dúvida: quem comprou, voltou a comprar ou foi uma vez sem exemplo? E era caro sendo poucas as garrafas ou era caro e eram muitas? Do «caro e poucas» temos cada vez mais exemplos entre nós, já do «caro e muitas» o número reduz-se substancialmente. As empresas que ganharam prestígio nos mercados externos podem dar-se ao luxo de vender caro porque o mercado é o mundo todo mas aqueles a quem falta essa aura de prestígio, muito dificilmente podem singrar, apostando em vinhos que, manda a regra (moda?) actual, ou custam mais de €100 a garrafa ou não interessam. Quem já vende caro há muito tempo pode facilmente explicar que o preço se foi construindo e, sempre, com uma aposta muito forte na qualidade, sem ceder um milímetro nesse domínio. A Sogrape, a Quinta do Crasto, a Fundação Eugénio de Almeida, o Mouchão, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo ou a Niepoort e outras empresas do Vinho do Porto, só para citar alguns exemplos, podem facilmente subscrever esta ideia. Há um caminho a fazer e tem de se começar por baixo. Já várias vezes o escrevi, o primeiro Barca Velha que comprei, da colheita de 1966, custou-me, nos anos 70, 220$00, ou, a preços actuais, €1,10. Na altura já não era barato mas o prestígio já lá estava e foi isso que me fez comprar a garrafa. Fosse um vinho sem a história e a fama que ele já então tinha e, seguramente, não me tinha arriscado. Sempre defendi, e continuo a dizê-lo, Portugal só tem a ganhar se os seus vinhos subirem de patamar, na qualidade e no preço. Mas esse é, não raramente, um caminho de pedras e obstáculos que se faz devagar e sem dar passos em falso. Para ir a jogo neste tipo de campeonato convém ter uma boa mão mas há que ter (como se diz no poker) uma boa cave para sustentar o risco. É que fazer um all-in sem segurança, é meio caminho para ficarmos depenados.

 Sugestões da semana:

(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

 Anselmo Mendes Alvarinho Contacto branco 2019

Região: Monção e Melgaço

Produtor: Anselmo Mendes

Casta: Alvarinho

Enologia: Anselmo Mendes

PVP: €9,90

O nome do vinho identifica o contacto (algumas horas) das películas com o mosto, de que resulta um branco mais complexo e, normalmente, com mais cor. Se esse contacto se prolongar designa-se então por curtimenta.

Dica: mais um ano de garrafa fez-lhe bem e o vinho ganhou personalidade, mantendo a vibração que deriva da extraordinária acidez que tem. Compre o 20 para beber apenas para o ano e goze agora o 2019.

Arinto dos Açores Sur Lies by António Maçanita branco 2019

Região: Pico – Açores

Produtor: Azores Wine Company

Casta: Arinto dos Açores

Enologia: António Maçanita

PVP: €30

O termo francês sur lies informa-nos que o mosto depois de fermentado ficou a estagiar sobre as borras (lies), procurando-se obter um vinho mais rico e original. A casta Arinto dos Açores é diferente da do continente.

Dica: citrino carregado, aroma maduro e austero. Grande prova de boca, com acidez perfeita e um toque salino.

Lou tinto 2017

Região: Reg. Alentejano

Produtor: Luís V. Louro

Castas: Alicante Bouschet (85%) e Trincadeira

Enologia: Luis Louro/Inês Capão

PVP: €28

Projecto conjunto dos dois enólogos de que resultou também um branco CA (um jogo com os dois nomes). Vinhas na zona de Estremoz.

Dica: temos um tinto robusto mas também elegante, muito bem na textura e na acidez. Será um prazer à mesa.

 

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