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As maldades do costume

Estranho seria se o clima cooperasse

Mais uma vez o clima está a fazer das suas e a pôr os produtores a deitar contas à vida. Estamos em Junho e, diz-nos a tradição, é habitual haver granizadas nesta época. O granizo é um fenómeno mais ou menos localizado e pode afectar uma vinha e não a do lado. Isso tem um efeito perverso porque um produtor que foi afectado na sua vinha, com a consequente grande quebra de produção, pode sempre vir dizer que não teve qualquer problema na sua vinha, escondendo assim que foi comprar vinho algures para compensar as suas perdas. É a frase habitual «eu tive sorte, não tive problemas de ganizo…». Sim, dizemos nós, com ar sério. O ano, que já tinha começado com os habituais problemas de míldio e oídio, promete não dar tréguas até ao final. A altura do S. João, por exemplo, tem no Douro uma expressão muito pouco interessante: o escaldão, em resultado dos excessivos calores com que o tal santo costuma brindar a lavoura. Vamos ter assim que contar com mais um ano atípico, embora ninguém se lembre já do que é que significa um ano típico. É verdade que a década de 10 foi gloriosa, nomeadamente para o Vinho Porto, com anos sucessivos de boas colheitas que permitiram as declarações sucessivas de vintage que vieram quebrar as tradições de sempre. Estão agora a chegar as primeiras declarações dos 2019, ano que os ingleses consideraram não clássico, ou seja, os vinhos declarados saem com os nomes das quintas em vez dos nomes das empresas. A Taylor’s declarou 4 – Quinta de Vargellas, Quinta do Roêda, Fonseca Guimaraens e Quinta da Terra Feita – e o grupo Symington apresentou para já dois – Senhora da Ribeira e Quinta do Vesúvio – sendo que os restantes, tal como é hábito nesta empresa, serão vendidos mais tarde. Voltaremos a estas declarações quando os vinhos estiverem disponíveis no mercado, o que só deverá acontecer no Outono. Entretanto, e voltando às alterações climáticas, a preparação para um futuro incerto obriga a muita investigação, nomeadamente sobre castas. Quais as que resistirão melhor ao calor? Algumas que tinham sido postas de lado porque davam pouca cor aos vinhos ou porque geravam pouco álcool, podem agora ter nova oportunidade. Não só as modas agora já não privilegiam os vinhos muito carregados de cor, como o álcool mais baixo é agora valorizado em vez de penalizado. Mandam assim as boas práticas que não se dê por acabada a procura. Regiões como o Douro que têm mais de 50 castas no seu cardápio, têm muito por onde escolher. E mesmo quando se chega à escolha acertada há inúmeras variantes a ter em conta. O futuro é muito incerto e o facto de estarem agora a surgir no mercado vinhos experimentais, de castas como Malvasia Preta, Bastardo, Donzelinho, Touriga Fêmea, Tinta Carvalha ou Tinta Francisca, são exemplos de elementos de um futuro, cada vez mais próximo. São todos eles vinhos mais abertos de cor, mais vegetais que frutados e, até nesse aspecto, mais fiéis às nossas tradições. Com alguma sorte, podemos estar descansados.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Villa Alvor branco 2019
Região: Reg. Algarve
Produtor: Aveleda
Casta: Sauvignon Blanc
Enologia: Manuel Soares
PVP: €12
Este é o projecto mais recente da Aveleda no Algarve, na zona do Alvor. Com circulação sobretudo regional, daqui saem vinhos de perfil internacional.
Dica: muito fiel à casta e às notas verdes de espargos e relva cortada, temos um branco de Verão, para marisco na esplanada.

Crasto tinto 2019
Região: Douro
Produtor: Quinta do Crasto
Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz e Tinta Barroca
Enologia: Manuel Lobo
PVP: €9,90
Tinto robusto, a revelar a região de origem, combinando notas de fruta negra e sugestões de barrica, tudo com muita qualidade. Um prazer.
Dica: este é um tinto de óptima relação qualidade/preço. Pede pratos bem temperados como bochechas de porco estufadas em vinho tinto.

Porto Churchill’s Dry Aperitif
Região: Douro
Produtor: Churchill Graham
Castas: várias
Enologia: Johnny Graham/Ricardo Nunes
PVP: €19 (garrafa de ½ litro)
Ao contrário da maioria dos Porto brancos este tem estágio em madeira e por isso apresenta uma cor mais carregada. Moderadamente seco. Deve ser sempre bebido fresco.
Dica: perfeito se servido apenas com uma fina casca de laranja (com amêndoas torradas) ou como Porto tónico, aqui com inúmeras soluções possíveis.

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