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Castas para todos, vinhos só para alguns

Variedades amigas, preços ingratos

Quem produz uvas e faz vinho sabe que há castas que são amigas do agricultor e outras que são madrastas. Há algumas que têm um tipo de «amizade leviana», são as que vão com todos, produzem à bruta e originam uns vinhos que não são bem vinhos, são vinhecos. Alguns terrenos da margem do rio Tejo, por exemplo, podem produzir 30 toneladas de uva num hectare. Para se ter um dado comparativo, no Douro uma produção de 5 toneladas já é bastante aceitável. Terrenos férteis e produtores que preferem quantidade à qualidade dá nisto. O eterno desafio da viticultura é fácil de expor: como produzir o máximo mas com perda mínima de qualidade? Não chega a ser uma equação mas é um problema sério. Enquanto alguns produtores fazem monda de cachos quando ainda estão verdes, conseguindo assim, como menor produção, uma maior qualidade, outros não querem nem ouvir falar de mondas, é preciso é produzir uvas saudáveis e, se forem muitas, melhor. Há assim castas que são naturalmente mais produtivas (se as deixarem) e há também as que são amigas dos produtores. Essas são as que dão bons resultados, em climas diversos e com solos e práticas agrícolas diferentes. Um desses casos é a variedade do branco que hoje sugiro, a Chardonnay. Clássica da Borgonha, é uva que se dá bem por todo o lado. Vulgarizou-se de tal forma nos Estados Unidos que Chardonnay passou a ser sinónimo de vinho branco. Tem muita capacidade para gerar vinhos com personalidade e resulta bem quer em inox quer na fermentação em barrica. Por isso é tão apreciada. O mesmo acontece com o Cabernet Sauvignon que tem ainda a vantagem acrescida de ser muito resistente à podridão e a Syrah, a nova menina bonita do Alentejo, que produz sempre bem (outro sonho de qualquer produtor). Já no respeita a vinhos e a que preços se vai vender a produção, aí é que a coisa se complica. Vender caro pode ser aventura perigosa porque uma coisa é vender 500 ou 1000 garrafas, outra bem diferente é vender 50 ou 100 000. É pena que haja compradores que acham que estão a comprar um vinho «do outro mundo» só porque é caro. Sejamos claros: eu até posso ter no meu portefólio um vinho a €1000 a garrafa, desde que sejam apenas umas centenas de garrafas, não complica nem dá dores de cabeça ao contabilista da casa. Falou-se do vinho, a imprensa incauta e ignara foi atrás e uns quantos tolos, só porque têm muito dinheiro, resolveram comprar. A pergunta fatal é que não convém ser feita: o vinho vale o preço? Algo de semelhante vai acontecer quando o novo Barca Velha for disponibilizado no mercado. Este tinto tem, no entanto, trunfos a seu favor: tem muita história e o preço fez-se com o tempo e não de um dia para o outro; são também muitas garrafas – quase 30 000 – o que já é uma ousadia, uma vez que cada botelha vai o custar (mais coisa, menos coisa) o salário mínimo nacional. A quem vende muito e caro tira-se o chapéu. Aos parolos ricos que compram qualquer vinho caro só para mostrar que podem, apetece dizer: é bem feito!

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Herdade Grande Clássico Colh. Selecc. tinto 2017
Região: Reg. Alentejano
Produtor: António Lança
Castas: Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Aragonez e Trincadeira
Enologia: Diogo Lopes
PVP: €7,35
Produtor de referência da zona da Vidigueira, mais conhecido pelos seus brancos mas com tintos de excelente relação preço/prazer.
Dica: um tinto robusto, boas notas vegetais e terrosas, tudo em bom equilíbrio. Aponta claramente para a gastronomia regional, como borrego assado.

Quinta de Cidrô Chardonnay branco 2018
Região: Douro
Produtor: Real Companhia Velha
Casta: Chardonnay
Enologia: Jorge Moreira
PVP: €15
A primeira edição este vinho foi em 1996. As vinhas situam-se em S. João da Pesqueira e beneficiam assim da altitude para um bom equilíbrio dos mostos.
Dica: com a fermentação em madeira o vinho ganhou volume e gordura mas sem perder a frescura. Muito gastronómico.

Frederick Von S. Conde de Mértola tinto 2017
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Monte F. Assis
Castas: Aragonez, Trincadeira Syrah, Alicante Bouschet e Touriga Nacional
Enologia: Diogo Pereira
PVP: €45
Em solos de xisto e argila nasce este tinto de agricultura biológica. Feito em inox com temperatura de fermentação controlada.
Dica: muito fino de aroma e sabor, mostra um bom balanço entre as várias componentes. Absolutamente consensual.

 

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