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Heranças cor de rosa

E, vindo aí o calor, não há que hesitar…

É famosa e correu mundo a foto de Jimi Hendrix com uma garrafa em formato de cantil na mão, em ambiente de festa. O tal cantil era de Mateus rosé e o Jimi, para os mais novos que não sabem do que estou a falar, foi um dos guitarristas mais famosos de todos os tempos, um canhoto que fazia maravilhas com a sua Fender, numa época (finais de 60) em que o máximo de sofisticação que se conseguia numa guitarra eléctrica era o efeito do pedal de ua-ua. Era mesmo preciso ser artista e saber do ofício. O Mateus viveu bem à sombra da fama mas não dormiu sobre os louros e soube reinventar-se para não perder o enorme mercado que tinha. Ninguém, a dormir sobre glórias passadas, consegue como a Sogrape conseguiu, fechar o ano 2020 com a melhor performance deste século, com 21 milhões de garrafas vendidas em mais de 100 países. Para uma marca que nasceu em 1942, é obra! Foi preciso chegar aos inícios de 1990 para a Sogrape avançar então com um outro tipo de rosé. Era feito na Bairrada, era seco, chamava-se Nobilis e foi esse, estou em crer, o momento fundador de uma nova era dos vinhos rosados em Portugal. A ideia de fazer um vinho afastado do modelo Mateus, que pudesse ser polivalente à mesa, leve, de boa acidez e suficientemente seco para agradar a todos, esse modelo criou raízes e prosperou. O tema passou a interessar mais produtores que viram no rosé um complemento de portefólio e a moda internacional acabou por fazer o resto. A região francesa da Provença tornou-se líder neste rosé de tipo novo: com pouca cor (alguns exageros chegam até um vinho que praticamente não tem cor…), grande leveza de corpo, seco, aromático e ao gosto de todos, a Provença vendeu qualquer coisa como 120 milhões de garrafas em 2019. São valores astronómicos. Já provei alguns que chegavam aos €100 por garrafa. Não me parece que mereçam o preço mas isso não é relevante; se se venderem é porque o preço está certo. Entre nós também esta moda dos rosés de cor salmonada e muito finos de paladar ganhou espaço, de que é bom exemplo o vinho que trago hoje. Este é o tipo de vinho que se consegue fazer em qualquer região e com muitas das castas tintas. É exigente na confecção mas os resultados podem compensar amplamente: a grande maioria não requer estágio de barrica, fazem-se rapidamente e poucos meses depois da vindima podem estar à disposição do público. No entanto há que perceber que o rosé não é, tal como o branco, um vinho que se tenha de beber da colheita mais recente. Não há muito tempo orientei uma prova em que, intencionalmente, coloquei um rosé de 2004, um Niepoort Redoma, com resultados espectaculares. Há mesmo produtores, e lembro aqui o produtor da Rioja López de Heredia, cujo rosé Viña Tondonia só é vendido com 10 nos de idade. Podem ser vinhos bem interessantes, cheios de carácter e que dão muito prazer à mesa. Em breve o Expresso dedicará um espaço especial a estes vinhos. Mais uma vez os preconceitos têm de ser arrumados na gaveta. E de vez!

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Casal Santa Maria branco 2019
Região: Reg. Lisboa
Produtor: Adraga Explorações Agrícolas
Casta: Malvasia de Colares
Enologia: Jorge Rosa Santos
PVP: €12
Como as vinhas estão plantadas em chão rijo e não de areia não pode ter a denominação Colares. Esta variedade de Malvasia só existe nesta região.
Dica: feito em inox com estágio sobre as borras finas. Muito citrino e fresco com acidez crocante. Para peixes delicados e marisco cozido.

Herdade do Rocim rosé 2020
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Rocim
Casta: Touriga Nacional
Enologia: Catarina Vieira/Pedro Ribeiro
PVP: €8,15
Os solos desta zona são de xisto e granito. As uvas foram ligeiramente prensadas e daí a cor salmonada que o vinho apresenta. Vinificado em inox.
Dica: é um rosé seco, muito leve e também por isso muito adaptado para aperitivo ou, à mesa, com saladas de Verão.

Casa Ferreirinha Touriga Fêmea tinto 2016
Região: Douro
Produtor: Sogrape Vinhos
Casta: Touriga Fêmea
Enologia: Luis Sottomayor
PVP: €62,50
Teve estágio de 2 anos em casco. A casta, sendo antiga na região e existindo nas vinhas velhas, só agora está a ser recuperada por algumas empresas.
Dica: tinto muito equilibrado, macio, com boa fruta e complexidade. A conhecer.

 

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