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Heranças e desafios

Às vezes é bom olhar para trás

Quando pensamos no tipo de vinho que consumimos hoje e na forma como o nosso gosto se foi adaptando aos novos tempos, percebemos que houve mudanças significativas. Se tomarmos como exemplo os vinhos brancos, notamos que hoje valorizamos muito a frescura ácida que eles nos transmitem, damos muito mais importância à elegância do que à potência. Os brancos com peso foram moda nos anos 90. No caso da utilização de barricas novas para a fermentação dos mostos dos brancos percebemos que foi na viragem de século que tudo se começou a inverter. Veja-se por exemplo o caso do conhecido concurso International Wine Challenge que anualmente tem lugar em Londres. Ali, e vou só usar um exemplo que nos dá o sinal da mudança, na categoria Oaked Chardonnay (vinhos brancos daquela casta fermentados ou estagiados em madeira nova), de 1999 para 2000 os oaked Chardonnay passaram de 716 para 664 e os unoaked aumentaram 116 no mesmo período. Essa tendência manteve-se nos anos seguintes. Passou o tempo em que se apreciavam vinhos densos nas notas de tosta, de frutos secos e pão torrado, carregados na cor e algo pesadões. De então para cá tudo se aligeirou e ganhámos com isso. Hoje consumimos brancos mais expressivos de fruta e muito mais frescos na prova de boca. Assistimos, entre nós, ao aumento muito significativo do número de brancos do Douro. Durante séculos aquela região apenas usou as uvas brancas para fazer Vinho do Porto branco e, quando despertou para este novo desafio, o Douro teve de correr para não perder (ainda mais) o terreno que, entretanto, tinha sido ocupado pelo Alentejo. Em 2000 num painel de prova de brancos Douro/Alentejo de boa relação qualidade/preço, os do Alentejo ocuparam 15 dos 17 primeiros lugares da classificação. Foi de resto a partir da segunda metade dos anos 90 que o Douro começou a surgir com brancos que procuravam dar o salto, como os vinhos da Niepoort e Ramos Pinto, por exemplo. O que aconteceu de então para cá tem muita relevância: a par da menor preocupação com o Porto branco, os produtores descobriram tudo o que precisavam para fazer brancos notáveis: vinhas velhas e em zonas altas, cuidada selecção de castas, deixando de lado as que eram sobretudo produtoras em quantidade e não em qualidade, identificação das parcelas com melhor exposição e uso ponderado da madeira. Daqui resultou naturalmente um novo Douro que deixou de ser apenas terra de tintos e passou a ser berço de muitos dos melhores brancos nacionais. Com a maior visibilidade e reconhecimento da crítica, nacional e estrangeira, assistimos a um aumento galopante dos preços. Voltaremos ao assunto e aos brancos do Douro em próxima crónica porque os vinhos merecem e porque o tema dos preços é demasiado importante para ser aceite acriticamente. E, de caminho, falaremos também dos rosés e um deles é sugestão desta semana. Também aqui se abriram novos caminhos e novos conceitos. Muito longe vão os tempos dos rosés feitos com sobras a que se juntava um pouco de gás e algum açúcar…

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Quinta do Gradil Chardonnay branco 2019
Região: Reg. Lisboa
Produtor: Quinta do Gradil
Casta: Chardonnay
Enologia: Tiago Correia
PVP: €10,50
Metade do mosto fermentou em barrica nova e usada, o resto foi em inox. O resultado mostra-se muito equilibrado, expressivo e muito fresco. Boa a expressão da casta.
Dica: perfeito para consumo imediato, para peixes com molho de manteiga ou natas.

Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo rosé 2020
Região: Douro
Produtor: Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo
Castas: Tinta Roriz, Touriga Francesa, Tinta Francisca
Enologia: Jorge Alves/Sónia Pereira
PVP: €11,85
Cerca de 25% do mosto fermentou e estagiou em barrica; o resto em inox. Resultou com 13,5% de álcool, fazendo dele um rosé para a mesa mais do que para aperitivo.
Dica: conserva-se num registo muito elegante, apto a pratos de massas ou marisco. Fruta fina, delicado e de grande potencial à mesa.

Redondo tinto 2019
Região: Alentejo – Redondo
Produtor: Casa Relvas
Castas: Aragonez, Trincadeira e Castelão
Enologia: Nuno Franco
PVP: €9
Aberto de cor, bons aromas florais, fruta vermelha vibrante. Na boca há uma acidez viva que lhe dá frescura e o estágio em tonel só lhe fez bem, sem o marcar.
Dica: intensamente gastronómico, acessível no preço, tudo a dar muito prazer sem ser preciso esperar por ele mais tempo.

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