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Ser conservador é ser exigente

As práticas antigas têm o que se lhe diga

Uma das sugestões vínicas desta semana – Poças – traz consigo o adjectivo de Orange. O conceito tem alguns (poucos) anos mas remete para uma técnica antiga, quando as uvas brancas eram fermentadas juntamente com as películas, o que hoje não acontece de todo. Essa prática mantém-se nos vinhos tintos porque é na película que está a cor e é preciso transferi-la para o mosto em fermentação. A tradição impôs então o nome de Curtimenta para o método de fermentação dos tintos e Bica Aberta para os brancos. Bem me lembro de andar, ainda miúdo, a pisar uvas brancas em lagar e ver depois essas películas serem espremidas até não deitar mais sumo. Tudo isto poria os cabelos em pé a um qualquer enólogo moderno. Os vinhos, diga-se, sabiam bem (também não conhecia outros…) e era sabido que só com alguma sorte chegavam com saúde à vindima seguinte. Actualmente a técnica da curtimenta nos brancos exige saber e cuidados técnicos para não se deitar tudo a perder. Os vinhos são vendidos mais caros e, se se pede mais ao consumidor, há que ter a obrigação de fornecer um produto de alta qualidade. Não basta dizer que se está a fazer como os velhinhos faziam. Do tempo dos velhinhos (nossos pais ou avós) até hoje a ciência ligada ao vinho evoluiu tremendamente e desprezar esse conhecimento apenas porque se quer intervir pouco não é normalmente sinal de grande inteligência. Pode ser-se conservador nos métodos mas é bom que se saiba o que se faz. Fermentações excessivamente longas de brancos, pouco controle sobre a fermentação maloláctica, não colar ou filtrar, poucos cuidados com as barricas, recusa de usar leveduras em nome de uma pureza de métodos ou não usar sulfuroso porque “agora é moda assim”, dá muito mau resultado e os vinhos, que inicialmente até podem parecer muito bons, acabam, com o tempo em garrafa, por mostrar todas as asneiras feitas no trajecto. O vinho não se faz por si e é preciso “estar em cima” de todos os processos para assegurar um bom produto final. O vinho turvo não é melhor por ser turvo, os espumantes “pet nat” não são melhores por usarem um método ancestral e o resultado não é melhor por se usarem leveduras indígenas. Em todos estes caminhos há muitos “ses”. Fica então por saber se estamos condenados aos excessos tecnológicos actuais que tornam os vinhos muito parecidos. Esses excessos são hoje correntes nos chamados vinhos de supermercado mas, é bom não esquecer, é lá que a esmagadora maioria dos compradores se abastece e quer gastar pouco dinheiro em vinho. Aí não há outra solução, o vinho tem de cumprir a função. São esses que nos dão prazer? Não são, mas, nos outros, naqueles que pagamos caro e às vezes muito caro, esperamos produtos originais, ousados mesmo, mas que sejam feitos com saber. E aceitaremos os vinhos feitos com práticas antigas, dos lagares aos grandes tonéis, passando pelo uso de castas que já estiveram esquecidas ou postas de lado. Conservadorismo “porque sim” é que não é aceitável! Há imenso campo para o experimentalismo mas, tal como nas vacinas, optar pelo negacionismo porque antigamente é que era bom, é evidente sinal de burrice.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Quinta do Monte d’Oiro Reserva branco 2018
Região: Regional Lisboa
Produtor: José Bento dos Santos
Casta: Viognier
Enologia: Graça Gonçalves
PVP: €20
Pioneiro do Viognier em Portugal. As uvas vêm de uma parcela de vinha com 1 ha, plantada há 25 anos. Actualmente em modo de produção biológico. Fermentado em barrica nova (40%) e usada.
Dica: volumoso, com muito carácter, com fruta bem madura e madeira bem integrada. Bem espevitado pela acidez. A beber com atenção e a descobrir as inúmeras ligações gastronómicas que permite.

Poças Fora de Série Orange 2018
Região: Douro
Produtor: Manoel Poças Pintão
Castas: Arinto e Códega
Enologia: Jorge Pintão
PVP: €18
O mosto esteve um mês em contacto com as películas e depois fermentou em barricas usadas. Ganha por isso muito mais cor e daí o epíteto de Orange. Também Fora de Série existe um Acrobata branco.
Dica: este branco de curtimenta mostra-se muito bem, com volume e estrutura mas com uma óptima acidez. Bela surpresa.

Porto Sandeman LBV 2016
Região: Douro
Produtor: Sogrape Vinhos
Castas: várias
Enologia: equipa dirigida por Luis Sottomayor
PVP: €20
A indicação Unfiltered, no rótulo, aconselha-nos a ter algum cuidado no manuseamento porque pode apresentar depósito. Depois de aberta a garrafa o vinho conservar-se-á por 2 a 3 meses.
Dica: a meio caminho de um vintage, este LBV mostra-se ainda reservado nos aromas de fruta negra, firme nos taninos e a pedir que algumas garrafas sejam deixadas na cave.

 

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