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Vinhos velhos saídos do baú

E tintos muito surpreendentes…

Quando alguém se dispõe a provar um conjunto de vinhos velhos sabe que tem de ter em mente uma regra que diz que “não há bons vinhos velhos, há boas garrafas de vinhos velhos”. Pode parecer um exagero mas não é. O tempo que decorreu, a forma como foi guardada a garrafa, a saúde da rolha e, claro, a qualidade do vinho e a sua capacidade para evoluir em cave, são determinantes para que o vinho possa estar em condições passados 20 ou mais anos. Foi isso que fiz. Juntei um conjunto de vinhos tintos, todos do século passado e reuni alguns apreciadores que rapidamente aceitaram o convite. Para se ter um critério muito apertado na selecção seria preciso ter um enorme acervo de garrafas. Não era o caso. Ainda assim consegui juntar vinhos de várias regiões, alguns deles comprados em leilão e outros que por aqui andavam há anos e anos a olhar para mim como que a dizer: então e eu? Esqueceste-te de mim? Algumas das garrafas eram exemplares únicos, algo que deixa sempre muito pouco espaço para os azares da prova. Optei então por juntar dois vinhos da década de 70, quatro da década de 80 e seis de 90. O começo não foi auspicioso porque o Bairrada São Domingos 77 tinha problemas de rolha e não havia outra garrafa. O outro 77 era um Tapada do Chaves, aparentemente “perigoso” pelo nível do vinho mais baixo do que o desejável mas que se revelou glorioso, evoluído mas intensamente rico, elegante e de boa frescura. Notável. Da década de 80 chegaram o Luis Pato Vinhas Velhas 88, não só o primeiro Vinhas Velhas que o país conheceu (creio que por sugestão do José Salvador) como o primeiro “monstro” deste produtor, um tinto que demorou anos a começar a abrir e que está agora no seu melhor (esgotadíssimo no produtor). Seguiu-se o Dão Porta dos Cavaleiros 89, ainda disponível para vendas nas caves São João a €32,50 a garrafa (e também existe em magnum), um tinto que teve origem na Casa da Passarela, estagiou nas caves e foi engarrafado em 93. Mostrou-se fino, muito elegante e dar muito prazer a beber. Tudo aquilo que esperamos do Dão. Da Adega Cooperativa de Borba veio um 1983, um ano que gerou vinhos famosos e que correspondeu às expectativas, também a lembrar aos que não têm os tintos alentejanos em conta para grandes estágios em cave (grupo em que já me inluí…) que a prova desmente esses receios. Ainda desta década, duas decepções: Quinta da Bacalhôa 87 (uma pena porque parece que poderia ter dado boa conta de si) e um Colares Viúva Gomes 87, já com uma acidez volátil (nota avinagrada) muito elevada. O melhor estava reservado para a década de 90, logo nesse ano a começar por um ícone absoluto da Bairrada, Gonçalves Faria Tonel 5, um tinto feito em lagar, com engaço e estagiado em tonel velho. O tal Tonel 5 terá sido engarrafado à parte por sugestão de Luís Lopes, na altura em visita à cave do produtor. Ele morreu antes de tempo e as vinhas foram arrancadas cedo demais. O vinho, esse, mostrou a finesse e a elegância que hoje muitos almejam. Da quinta de Foz de Arouce (Lousã) tivemos um tinto de 1991, feito com a casta Baga de vinha velha, com muito pouca tecnologia mas a mostrar ainda vigor e muito carácter. Um prazer. Grande, ou por que não dizê-lo, enorme surpresa foi o Dão Quinta das Maias Jaen 1996. Jaen é a casta mais plantada na região mas raramente origina vinhos varietais de grande destaque. Este era um desses, fabuloso pela complexidade e riqueza, e isto num ano de enorme produção. Dizia-se então que “as uvas parece que nasciam debaixo das pedras”. Coisas do vinho! Mais três vinhos de grande renome a completarem o ciclo dos anos 90: Fojo 96, um Douro que ficou famoso na altura e que ainda dá muito boa prova, fino e elegante mas que não merece guarda; um Cortes de Cima Reserva 1998, polido e já sem marcas da madeira nova, ficou ligeiramente prejudicado por leve nota de rolha. Terminámos com um Homenagem a António Carqueijeiro 1999, um vinho de José Bento dos Santos feito na quinta do Monte d’Oiro. Seguindo os ventos da época, foi estagiado em 200% de madeira nova. Hoje tudo se mostra bem integrado, cheio, macio e muito polido. Tivemos sorte porque nem sempre é seguro que uma prova assim seja bem-sucedida. Que já se faziam grandes vinhos, ninguém duvide disso…

 

 

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