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Nobrezas e grandezas

O vinho e os seus atributos

Entramos numa garrafeira ou na secção de vinhos de um super e vemos numerosas garrafas que ostentam designativos de qualidade. Uns estão previstos na legislação, como Reserva, Grande Reserva, Reserva Especial, Colh. Selecc. ou Garrafeira, outros dependem da imaginação do produtor, do distribuidor ou do comprador e aqui vale tudo: Selecção do Enólogo, Collection, Winemakers Selection, Reserva Pessoal e mais o que se conseguir inventar para ajudar a vender o vinho. Os designativos que vêm na lei têm que cumprir alguns requisitos, alguns deles realmente “mínimos” como seja, por exemplo, ter uma graduação pelo menos 0,5º acima do mínimo exigido na região. Escusado será dizer que praticamente todos têm e daí a proliferação de designativos de qualidade aprovados pelas Câmaras de Provadores. Ora, como para a maioria deles não existe uma obrigação de estágio prolongado, é fácil encontrar um vinho novo que se intitula Grande Reserva. Está tudo desvirtuado e bem que podíamos aprender com nuestros hermanos que obrigam a que os designativos Reserva e Grande Reserva tenham tempo de estágio obrigatório e com duração determinada. Já nem falo numa atitude mais “radical” como seja indexar o designativo a um preço ao consumidor, o que teria vantagens mas ninguém quer ouvir falar nisso. Entretanto duas regiões tentaram dar um passo em frente: no Dão foi criada a categoria “Dão Nobre” para brancos e tintos. O produtor candidata o seu vinho e essa categoria mas o vinho tem de ter uma classificação média na Câmara de Provadores acima dos 90 pontos, em 100. Nada fácil. Até hoje apenas duas marcas almejaram este objectivo: Fonte do Ouro branco, por duas vezes (2015 e 2018) e Casa de Santar tinto (2013). Uma terceira marca foi aprovada mas o produtor não quis usar o designativo. No caso da Bairrada foi criada a categoria Bairrada Clássico, atribuível a vinhos tintos que preencham a obrigação de usar as castas para isso autorizadas (e que actualmente são a Baga, Castelão, Touriga Nacional, Jaen, Alfrocheiro e Camarate) desde que a Baga esteja presente, pelo menos, em 50% do lote. Creio que aqui se perdeu uma boa oportunidade de criar de facto uma categoria emblemática. Em vez da Baga estar presente em 50% deveria estar pelo menos em 85%, evidenciando assim o carácter da região. Tal como está é uma categoria que interessa a relativamente poucos produtores, contando-se por meia dúzia os que a têm no mercado. E não será por acaso que os nomes mais sonantes e mediáticos da região, como Luis e Filipa Pato ou Quinta das Bágeiras não tenham nenhum vinho com esta designação. Quis-se assim dar um passo em frente para valorizar a região mas logo se conseguiu dar um tiro nos pés. Mais antiga entre nós é a designação Garrafeira que percorre todas as regiões e que obriga, no caso dos tintos, a 30 meses de estágio, dos quais 12 em garrafa antes da comercialização; nos brancos são 12 meses de estágio com 6 em garrafa. Como se imagina, nenhum produtor que vai vender o seu vinho a 3 ou 4 euros esperará 30 meses por ele. Fica a dúvida: que região sai prestigiada (como é o caso do Douro) com um Grande Reserva tinto da Adega Coop. Vila Real vendido a €5,54 a garrafa? Alguém pode ajudar o consumidor?

Sugestões declaração do da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Fonte do Ouro Nobre branco 2018
Região: Dão
Produtor: Soc. Agr. Boas Quintas
Castas: Encruzado, Arinto e Cerceal Branco
Enologia: Nuno Cancela de Abreu
PVP: €73,50
Fermentou e estagiou em madeira nova de carvalho. Apenas se produziram 1665 garrafas.
Dica: branco de luxo, onde o requinte, o polimento e a classe se juntam. Só podia ser Nobre. E, o que não é de somenos, vale cada cêntimo.

Messias Bairrada Clássico Garrafeira tinto 2015
Região: Bairrada
Produtor: Caves Messias
Casta: Baga
Enologia: João Soares
PVP: €25
Pisa a pé e começo da fermentação em lagar. O vinho estagiou 24 meses em barrica. Produção de 5810 garrafas. Graduação inesperada de 12,5% de álcool.
Dica: muito clássico Bairrada no aroma (ginja, barro molhado) e uma boca elegante, com bons taninos e muito carácter. Quer conhecer um bom Baga? Não é preciso ir mais longe!

Maritávora Nº 2 Grande Reserva tinto 2018
Região: Douro
Produtor: Maritávora
Castas: vinha centenária com castas misturadas
Enologia: Jorge Borges
PVP: €33,50
As vinhas situam-se em Freixo de Espada à Cinta. Vinhos feitos a lagar e com estágio em barrica. Também existe um Grande Reserva branco, invariavelmente um dos melhores (mas pouco falado) vinhos brancos de Portugal.
Dica: um grande tinto, complexo, muito rico, pleno de fruta e boas notas de madeira. Um portento ainda em fase de crescimento.

 

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