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O inverno do nosso contentamento

No meio de tanto desalento algo para nos animar

Está quase a fazer um ano que esta conversa teve lugar. Estava eu em fase de planeamento do ano, entre saídas, visitas e reportagens, viagens ao estrangeiro etc, quando falei com um contacto meu em Macau para uma ida em Maio. Por cá começavam a adensar-se as nuvens da pandemia mas, dizia-me de lá, “não te preocupes que isto em Maio já passou”. Depois foi o que se viu. O lockdown funcionou por lá muito bem e já há alguns meses que não há um único caso. Mas se eu lá for agora obrigam-me a ficar num quarto de hotel, sem de lá sair, durante 21 dias. As viagens têm, como se vê, de esperar muito até um regresso à normalidade. Por cá, entretanto, tem chovido o que não choveu nos últimos invernos e isso é bom para a vinha, para repor a água no solo e preparar o verão. Estamos também trancados em casa, não no quarto do hotel mas também à espera que isto passe e, dizem-nos, a começar a desatinar. Quem não descansa é o lavrador que tem agora de fazer a poda da vinha e, com esse gesto, definir o que vai ser a produção este ano e nos próximos. É a primeira de uma longuíssima lista de intervenções a que a vinha obriga. Logo após a rebentação, lá para daqui a um mês, e se continuar a chover, lá vamos ter os lamentos de quem nunca está satisfeito: terra encharcada, o tractor não entra, os tratamentos não são possíveis, maldita chuva que nunca mais pára. Esta é uma conversa recorrente, a eterna impossibilidade de ter, em simultâneo, sol na eira e chuva no nabal. E mais para a frente os lamentos continuarão: muita chuva significa muita erva, e muita erva seca vai tornar-se, no verão, pasto para incêndios gigantes. O clima é determinante para a evolução da cepa e não faltam malucos a quererem improvisar: ouvi de um produtor do Dão a ideia (ainda não concretizada) de fazer uma vinha com ar condicionado: ambiente fechado, temperatura e humidade controladas, rega gota a gota e pronto, as agruras do clima estavam eliminadas! O desespero provocado pelas adversidades climáticas não quebra, como se vê, a imaginação. E, infelizmente, por mais um ano, os produtores que vendiam sobretudo no canal HORECA (hotéis, garrafeiras e restaurantes) e que sofreram a bom sofrer no ano passado, esses produtores estarão provavelmente a pedir por tudo para que o ano não venha a ser de grande produção porque quanto maior ela for, maior será a dor de cabeça para escoar os vinhos. Sem turismo e sem restaurantes torna-se necessário uma enorme dose de imaginação para se poder colocar o vinho no mercado, encontrar quem compre e, ainda mais difícil, encontrar quem pague. Estamos assim num enorme buraco, onde alguns ainda encontram formas de subsistir mas muitos outros estão já a deitar contas à vida. Pelo facto de se continuar a vender bem o vinho nas grandes superfícies isso não deve obrigar a que todos agora se conformem com esse tipo de negócio. Esse é um terreno movediço onde o lucro se conta por tostões e onde nem é preciso, sequer, produzir vinho: compra-se na EU e depois chamamos-lhe Pias qualquer coisa. Mas que mundo este.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Terrantez do Pico branco 2019
Região: Açores
Produtor: Azores Wine Company
Casta: Terrantez do Pico
Enologia: António Maçanita
PVP: €49,90
A casta está em recuperação e, além do Pico, está também plantada noutras ilhas. Não existe similitude com o Terrantez da Madeira.
Dica: original, radical mas com muita personalidade, um branco salino e austero, bem expressivo em relação ao local de onde vem. Obrigatório conhecer.

Pegos Claros Reserva tinto 2016
Região: Palmela
Produtor: Herd. de Pegos Claros
Casta: Castelão
Enologia: Bernardo Cabral
PVP: €10
Tem origem em vinhas com 70 anos, em terrenos de areia. Pisa a pé e fermentação em lagar, estágio em barrica usada. Este tinto comemora 100 anos da empresa.
Dica: um verdadeiro tinto guloso e gastronómico, macio, pouco encorpado mas muito ágil e fresco.

Foral de Évora tinto 2018
Região: Alentejo
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida
Castas: Alicante Bouschet, Trincadeira e Aragonez
Enologia: Pedro Baptista/Duarte Lopes
PVP: €12,50
Estagiou 12 meses em barrica. A marca foi criada em 2000 e também tem uma versão em branco.
Dica: acessível no perfil, bem aromático, médio corpo, macio e perfeito para ser consumido desde já.

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