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Acabou-se a conversa

Temos de ganhar juízo, essa é que é essa

Abro o correio um destes dias e vejo um mail da Millésima, uma empresa sediada em Bordéus e que funciona como broker, como intermediário entre os produtores e os consumidores. Há muitos (alguns de duvidosa seriedade…) e o negócio funciona assim há séculos. Sou comprador ocasional de vinhos en primeur e sempre funcionou tudo muito bem, também porque lá trabalha a nossa compatriota Luce Antunes e que, naquele português tão engraçado com sotaque, nos resolve qualquer problema. Bem, quando abri o mail vi que estavam a anunciar a última oferta dos primeurs de 2019, vinhos que foram propostos inicialmente na Primavera de 2020. Os vinhos serão entregues em Janeiro de 2022. Quando são provados pelos inúmeros críticos e winewriters que nessa altura aterram em Bordéus, os vinhos, nomeadamente os tintos, ainda estão na barrica e muito longe do “aspecto” final, mas já dá então para perceber se vão ser grandes ou apenas bons. O chauvinismo francês não contempla a hipótese de anos maus. As classificações dos críticos é que podem, entretanto, fazer subir os preços iniciais, daí o interesse de assegurar um preço en primeur. Pois no mail vi então vinhos a serem oferecidos agora a preços muito, mas mesmo muito moderados. A cantilena de que os nossos vinhos são muito baratos e têm uma qualidade excelsa tem de acabar. Mesmo em regiões famosas como Bordéus os produtores perceberam que os preços de ourivesaria são apenas para alguns porque têm muita história para contar. O resto do contingente tem de praticar preços correctos mas justos, longe da alucinação que agora se vê entre nós, onde qualquer vinho se arvora no direito de cobrar €50 ou mais para autorizar que os simples mortais o provem. A vinha produz pouco? E daí? A produção é pequena? E que culpa tenho eu? Este tema, de tão falado, começa a cansar. É que, no tal mail, encontrei ali vinhos, de propriedades de nome, abaixo dos €10 a garrafa e muitos mesmo abaixo de €20. Sejamos claros: os grandes vinhos a preços caros não nascem de um dia para o outro e têm de fazer um caminho, mais ou menos longo, para poderem atingir o estrelato. Os vinhos que por cá se querem fazer passar por “néctares dos deuses” não são nada no palco internacional, ninguém os vai comprar, não porque tenham baixa qualidade mas porque não têm história e porque a crítica internacional não perde tempo com eles. Não somos só nós que estamos a produzir com qualidade, o mundo inteiro produz vinhos bons, sem defeitos e muito capazes de serem perfeitos companheiros da refeição. De onde nos vem então esta mania de sermos os melhores? Provavelmente da nossa pequenez, de viajarmos pouco para conhecer o que os outros fazem, de haver pouca gente a dizer que o rei vai nu. Isto de estarmos na ponta da Europa não nos favorece e, ao lado de produtores que se acham o máximo, não faltam bajuladores que, afinando pelo mesmo diapasão de iliteracia vínica, lhes dizem que são mesmo o máximo. Enfim…

Sugestões declaração do da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Ravasqueira Vinha das Romãs tinto 2018
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Soc. Agr. Dom Diniz
Castas: Touriga Nacional e Syrah
Enologia: Pedro Pereira Gonçalves
PVP: €16
Vinhas na zona de Arraiolos, na família Melo desde 1943. O vinho estagiou 20 meses em barrica.
Dica: um tinto bastante completo em todos os aspectos, aliando estrutura e elegância, polivalente à mesa e ainda muito capaz para viver bem em cave.

Dona Maria Touriga Nacional tinto 2016
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Júlio Bastos
Casta: Touriga Nacional
Enologia: Sandra Gonçalves
PVP: €17,60
O mosto fermentou em lagares de mármore da quinta, o vinho estagiou posteriormente durante um ano em barrica. Vinhas na zona de Estremoz.
Dica: para os apreciadores este é um bom Touriga alentejano, com leves notas citrinas de bergamota, tão características da casta. Maduro, amplo, cheio, tudo sem pesar.

Musgo branco 2018
Região: Dão
Produtor: J. Cabral de Almeida
Castas: lote de castas misturadas na vinha
Enologia: João Cabral de Almeida
PVP: €12
Primeira incursão deste enólogo nos brancos da região onde tem raízes familiares. Mais conhecido é o seu trabalho nos Vinhos Verdes.
Dica: vibrante na frescura ácida, com bom suporte de notas minerais. Muito bem conseguido.

 

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