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Vamos lá a manter a cabeça fria

Será que o Covid também afecta o discernimento?

O assunto desta crónica versa os preços dos vinhos. Não os da selecção desta semana que esses, apesar de elevados, se podem considerar dentro de parâmetros aceitáveis. Os consumidores têm com os preços uma relação um bocado esquizofrénica. Parte-se do princípio que eles têm de ser obrigatoriamente baixos e nem se pensa bem no que se está a dizer. Isto é também válido para outros produtos que não o vinho. O mais grave – aqui em entrada repentina em terrenos que não me são tão habituais – será o azeite e o vinagre. Qualquer destes produtos tem um consumo prolongado no tempo, uma garrafa de azeite de temperar à mesa pode, num consumo normal de família, durar semanas e um vinagre para saladas pode durar meses. Pois apesar disso os consumidores quando chega a hora da compra querem sempre o mais baratinho. A conclusão é óbvia: estão a adquirir produtos vulgares que irão estragar o bacalhau, o escabeche e os outros petiscos. Se pagarmos 12 ou 15 € por uma meia garrafa de azeite estamos a pagar caro? Sim, se for para fritar batatas mas não, se for para temperar à mesa. Com o vinho e os seus preços passa-se um pouco o mesmo; os vinhos baratos bebem-se, não fazem mal mas não enchem a alma. O que está a acontecer agora entre nós é o oposto, ou seja, cada vez mais produtores estão a colocar os seus topos de gama a mais de €100 a garrafa e alguns a chegar aos €200. Há mesmo vozes a dizer que alguma comunicação social é culpada por ter andado a dizer (como eu tenho feito há muito tempo) que os vinhos portugueses eram demasiado baratos. A essa ideia acrescenta-se outra, também muito badalada: se não tivermos vinhos caros não nos afirmamos, enquanto país de grandes vinhos, no circuito internacional! É verdade mas este é um caminho de progressão lenta, não é, como no ténis, serviço/rede e está feito o ponto. É pouco credível que um produtor cujos vinhos se situaram, no máximo, na casa dos 30 ou mesmo 40 €, de repente “ache” que agora valem €150. O verbo achar está entre aspas porque quem “acha” normalmente não sabe o que está a fazer. Dizem as pessoas do marketing que, na sua área, não se acha nada, testa-se! Por esta razão sou levado a pensar que se anda a testar pouco e a achar muito. É que, todas as semanas me têm chegado informações (e às vezes garrafas) de vinhos em que os preços são manifestamente desajustados. Vamos aceitar como válida a regra, que subscrevo inteiramente, que diz que se os vinhos se venderem, por muito caros que sejam, isso significa que o preço está certo, mas creio que estamos a dar passos maiores que a perna. Porquê? Porque às tantas, começamos a comparar estes preços nomeadamente com vinhos clássicos de Bordéus com mais de 100 anos de história e prestígio e depois concluímos que podemos chegar à compra deles pagando metade dos nossos preços. Algo vai mal. É bom não deixar que a pandemia nos faça perder a lucidez, que a vida está difícil para todos.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Vale D. Maria Vinhas do Sabor tinto 2018
Região: Douro
Produtor: Quinta Vale D. Maria
Castas: cinco variedades, incluindo a Baga, pouco usada localmente
Enologia: Cristiano van Zeller/ Manuel Soares
PVP: €18
A quinta situa-se no Douro Superior. Vinhas com idades entre 10 e 35 anos. Uvas desengaçadas e pisadas em lagares de granito. Fermentação em inox e estágio de 21 meses em barricas de 2º e 3º uso. 12 160 garrafas e 400 magnuns.
Dica: Boa fruta madura ao lado de notas de vegetal seco, tudo muito típico do Douro. Um tinto muito equilibrado e muito polivalente à mesa.

Duas Quintas Reserva tinto 2017
Região: Douro
Produtor: Ramos Pinto
Castas: Touriga Nacional (60%), Touriga Francesa (30%) e 10% de Tinta da Barca e Sousão
Enologia: João Luis Baptista
PVP: €32
Junta uvas de duas propriedades, as de Ervamoira fermentam em lagar e as dos Bons Ares em cubas de cimento e balseiros. Estágio tripartido em tonel, barricas novas e usadas.
Dica: este é um clássico, um verdadeiro porto seguro que nunca desilude. Polimento geral e grande equilíbrio de conjunto. Um prazer.

Moreto Chão dos Eremitas Vinhas Velhas tinto 2018
Região: Alentejo
Produtor: Fita Preta
Casta: Moreto
Enologia: António Maçanita
PVP: €35
Vinhas (plantação em 1970) no sopé da serra de Ossa, onde registos arqueológicos dão conta da presença da vinha desde há séculos. O vinho fermenta com 30% de engaço. Estagia 18 meses em barrica usada. Produção de 1993 garrafas.
Dica: aberto de cor e com boas notas vegetais, um tinto muito clássico, um alentejano de outros tempos.

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