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Brancos que recuperam tradições

Apostas destas há agora em várias regiões

O tema de hoje são os brancos com idade. Não brancos quaisquer nem idade certa. Do que se trata aqui são vinhos que, em virtude de resultarem de um lote de várias colheitas, não apresentam data de colheita. A ligação entre vinhos de colheitas diferentes não é novidade e mesmo nos vinhos que têm data no rótulo – a esmagadora maioria do que encontramos no mercado – a lei autoriza que se incorpore uma pequena percentagem de vinhos de outra colheita. Se tomarmos o exemplo do vinho de 2020, o produtor pode juntar até 15% de vinho de 2019, por exemplo. Isso poderá ajudar em anos menos bons, quando ao lote juntamos vinho de melhor qualidade, mas também pode ajudar a escoar stocks. Podem assim ser várias as razões. Mas não é o caso de hoje. Aqui estamos noutro registo: os produtores foram deixando em cada vindima alguns vinhos em pipa que não engarrafaram e fizeram o mesmo nos anos seguintes. Quando chega a hora da decisão o enólogo tem à disposição vários lotes de vinho de colheitas diferentes. De seguida há que escolher as percentagens de cada ano visando um lote de final que, no fundo, se espera que seja melhor que cada uma das partes. Foi na Quinta dos Carvalhais, então pela mão do enólogo Manuel Vieira, que este tipo de vinho de começou a fazer, recuperando técnicas antigas que estavam em desuso. Depois, e bem, outros produtores e de outras regiões perceberam que este era um modelo que poderia ser replicado, correspondendo também a alguma maturidade do mercado consumidor, agora mais disposto a aceitar tipos e modelos de vinho que se afastam das regras e das modas. No fundo, atendendo a que estamos a falar de vinhos que estiveram vários anos em casco, o que é que é suposto encontrarmos? Normalmente são vinhos bem mais carregados de cor, a mostrar alguma oxidação, mas a cor não deverá ir além do dourado porque poderá então revelar uma oxidação excessiva que já não se considera muito positiva; depois, no aroma, vamos encontrar sobretudo notas de fruta bem madura e alguma compota, de resinas, cera de abelha, algum mel mas tudo num ambiente complexo e rico; o longo estágio em madeira usada não induz aromas de madeira e, se o vinho os tinha em novo, eles vão-se dissipando com o tempo. Já na boca temos sempre um vinho de grande estrutura, volumoso, rico, cheio que enche o palato e dá uma excelente prova, sobretudo se tiver boa acidez, algo que é muito frequente em regiões como o Dão, por exemplo. Até se pode dizer que estamos perante um tinto vestido de branco, um vinho totalmente afastado do que se faz no mercado. Num dos casos sugeri sopa de peixe porque já fiz essa experiência (na minha versão “estupidamente picante”) e o resultado foi uma incrível ligação que convenceu o painel de provadores. Estes são vinhos caros mas com toda a justificação: são difíceis de fazer e a possibilidade de falhar ao longo do processo é enorme. Por isso mesmo temos de fazer jus a esse esforço e bebê-los com a atenção que merecem. E voltamos a tema recorrente: entre três amigos divide-se a despesa e… tá feito!

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Quinta dos Carvalhais Branco Especial
Região: Dão
Produtor: Sogrape Vinhos
Castas: Encruzado, Gouveio, Sémillon e outras
Enologia: Beatriz Cabral de Almeida
PVP: €33
Já foram feitas várias edições deste Branco Especial, as datas das colheitas vêm no contra-rótulo. Usam-se vinhos até 8 colheitas diferentes.
Dica: vigoroso e cheio de classe, um branco que não se esquece, com imensa polivalência à mesa, das sopas de peixe até aos queijos.

Villa Oliveira 2ª Edição
Região: Dão – Serra da Estrela
Produtor: Casa da Passarella
Casta: Encruzado
Enologia: Paulo Nunes
PVP: €75
O lote junta vinhos de 2015 a 2019. O estágio muito prolongado teve lugar em barricas de 600 litros, uma por cada ano. Para o futuro espera-se um branco deste tipo mas com castas misturadas. Sem data ainda prevista.
Dica: resultou muito rico e complexo, com a madeira perfeitamente integrada. Fruta exuberante, tenso e com muito volume, um grande branco de uma grande região.

Guru NM No Millésime
Região: Douro
Produtor: Wine & Soul
Castas: Viosinho, Rabigato, Códega do Larinho e Gouveio
Enologia: Wine & Soul
PVP: €70
Deste vinho, lote de várias colheitas, fizeram-se apenas 1500 garrafas. É a primeira vez que a Wine & Soul se abalança a este projecto.
Dica: bem mais fino e elegante do que se poderia pensar, é um vinho de requinte que (também pelo preço) não deve ser bebido distraidamente. Uma aposta ganha.

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