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Vinhos sem Denominação de Origem

Quando os designativos de pouco servem

Os consumidores há já muitos anos que estão familiarizados com as designações que mais vulgarmente aprecem nos rótulos: DOC – Denominação de Origem Controlada (associada depois a uma região, Alentejo, Dão ou Douro, por exemplo) e Vinho Regional (Alentejano, Ribatejano, etc.). Em princípio, aos DOC corresponderiam os vinhos que melhor representam a região, pelo uso de castas recomendadas nas percentagens indicadas na lei; já os Vinhos Regionais não só estão autorizados a usar nos lotes 15% de vinhos de fora da região, como têm um muito maior espectro de castas que podem usar, todas as que os produtores da zona solicitaram que fossem incluídas nos regulamentos. Mais recentemente passou a autorizar-se a comercialização de vinhos sem qualquer denominação simplesmente chamados de Vinho, podendo indicar casta e ano de colheita mas sem qualquer indicação que leve o consumidor a associar o vinho a uma região. Exemplo do que não se pode fazer: engarrafado na quinta X, Reguengos de Monsaraz! Esta nova abertura permite aos produtores uma total liberdade no que querem comercializar: por um lado não precisam de submeter os seus vinhos a qualquer Câmara de Provadores, vendo-se livres dos ditames autoritários de algumas delas que se entretêm a chumbar vinhos porque sim, como é o caso de um vinho que seleccionei hoje; podem também comercializar o que entenderem, misturar brancos com tintos, lotear vinhos de regiões diferentes, entrar em “aventuras vínicas” que as regras clássicas não autorizariam. Pode o consumidor ficar a perder? Depende, mas o mais claro é que o consumidor tem outros critérios de compra que não se pautam pela simples escolha entre o designativo DOC ou Regional, entretanto renomeados, em algumas regiões, de IGP (os DOC) e IG (os Regionais). Há também grandes diferenças entre as várias regiões: no Douro, no Dão e nos Vinhos Verdes, os vinhos Regionais são em quantidade residual; já no Alentejo, Lisboa, Tejo, Algarve e Setúbal proliferam os Regionais. Temos situações diversas que com frequência nos mostram a confusão que grassa neste tema. E se quer consultar a legislação, prepare-se para um mergulho em emaranhados jurídicos indecifráveis. A nova categoria “Vinho” responsabiliza sobretudo o produtor e é ele que decide que vinho quer colocar no mercado. O consumidor comprou e gostou mas o vinho foi chumbado na Câmara de Provadores? Fica o consumidor com a ideia que a tal Câmara não serve para nada ou os provadores que lá estão deveriam fazer um refresh dos conceitos ou mesmo a Comissão Vitivinícola (CVR) deveria fazer um outsourcing de formação para evitar o downsizing da credibilidade. Não gosto nada desta terminologia mas pode ser que assim percebam que tudo o que for para ajudar o consumidor é de aplaudir mas fazer da burocracia a linha mestra orientadora da acção não levará Câmaras de Provadores e CVR, transformadas em polícias dos costumes, a lado algum. E quando os produtores deixarem de comprar selos por não quererem ter qualquer designativo, como vai ser?

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Quinta das Bágeiras Avô Fausto Chumbado branco 2018
Região: não tem
Produtor: Quinta das Bágeiras
Casta: Maria Gomes
Enologia: Rui Alves
PVP: €20
Fermenta em barricas usadas e estagia aí até ao Verão seguinte. Engarrafado directamente sem filtração.
Dica: maduro, resinoso, fora de moda, como sempre foram os brancos deste produtor. Sempre foram e irão continuar a ser, goste a Câmara de Provadores ou não. Há imensos consumidores a gostar…

Bipolar tinto s/ data
Região: não tem
Engarrafado por: Paulo Laureano
Castas: Alvarinho e Tinta Grossa
Enologia: Paulo Laureano/Paulo Rodrigues
PVP: €13
Junta-se aqui um branco da Quinta do Regueiro (Monção/Melgaço) com a casta tinta emblemática da Vidigueira.
Dica: sugere ser um tinto aberto mas o aroma é de facto diferente e bem conseguido, toques minerais, fruta fresca. Resulta bem atractivo.

Caves São João tinto 2015
Região: não tem
Produtor: Caves São João
Casta: Touriga Nacional do Dão e Baga da Bairrada
Enologia: José Carvalheira
PVP: 10€
Traz indicação de casta e ano no rótulo porque os vinhos do lote foram certificados nas respectivas regiões. Desde os anos 60 que estas Caves tinham um Reserva Particular com este tipo de lote.
Dica: um tinto alegre, floral, muito fresco e que mostra ser parceiro perfeito para a mesa.

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