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Debaixo do Vulcão

Os mistérios que o Pico encerra

É uma das nove ilhas do arquipélago dos Açores. É também uma das mais recentes, qualquer coisa como 300 000 anos, uma pequena fracção de tempo se comparada com a idade da ilha de Santa Maria que conta mais de 8 milhões de anos. Esta enorme diferença reflecte-se na paisagem: no Pico ainda se vê a lava com ar de ter secado há apenas uns meses e ao olhar para esta paisagem fica-nos sempre a dúvida sobre a capacidade de aqui se produzir alguma coisa ou plantar seja a o que for. A verdade é que a ilha tem duas partes distintas, uma muito arborizada (e mais antiga) e a outra, onde fica o Pico, bem mais desértica e onde, desde há séculos se planta a vinha. O título desta crónica está também relacionado com o facto dessa vinha antiga – que chegou outrora a ocupar 3 000 hectares, estar hoje escondida debaixo da mata que se vê desde o mar até meia encosta. A ilha produzia pouco – ainda hoje é a ilha com menos criação de gado e o que por ali pasta é para produção de carne – e foi nos pequenos currais murados que se conseguiu plantar uns pés de videiras, protegidas dos ventos marítimos por muros primitivos, literalmente de pedra sobre pedra. Hoje assiste-se a um renovado interesse pelo vinho do Pico, por força de investidores de fora que vieram desmatar e pôr de novo em uso os currais que lá estavam ainda, já não à vista desarmada mas intactos, debaixo da mata. A classificação das vinhas do Pico como Património da Unesco em 2004 veio dar um enorme impulso e a área de vinha tem crescido imenso, sendo actualmente de 900 ha que é, só para se ter uma ideia, o dobro da área de vinha da ilha da Madeira. Sempre houve dois tipos de vinho na ilha do Pico: os licorosos e os outros, também eles produzidos com as castas originais da ilha: Verdelho, Arinto dos Açores e Terrantez do Pico. A ilha produz também, por tradição e uso em acções religiosas, o vinho morangueiro, vulgo produtor-directo, muito apreciado localmente e até usado em algum receituário para ser consumido numa malga misturado com caldo de peixe. O licoroso que seleccionei esta semana tem adição de aguardente que ajudou a parar a fermentação mas também os há sem aguardente adicionada, como da marca Czar. Estes são vinhos originais e muito especiais que têm beneficiado com a chegada à ilha de enólogos capazes de tornear algumas dificuldades que estes vinhos apresentam e torná-los acessíveis a um público mais alargado. Já nestas crónicas falei em tempos de António Maçanita (que entretanto construiu uma enorme adega de raiz) mas também Paulo Laureano e, mais recentemente Bernardo Cabral. Esse “alargamento do público” revela-se obrigatório porque, com o aumento enorme da produção, torna-se necessário encontrar consumidores que ajudem a escoar a produção. Estes são vinhos a provar com atenção: salinos, austeros, afastados de modas mas cheios de personalidade e carregados de história. Com um pequeno trabalho de pairing, conseguimos surpreender uma plateia de apreciadores. O que nunca vamos saber é como é possível da lava seca nascer uma vide. Pense nisso quando beber um copo.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Terras de Lava branco 2019
Região: I. G. Açores
Produtor: Coop. Vitivinícola do Pico
Castas: lote de castas locais com outras de fora da região
Enologia: Bernardo Cabral
PVP: €10,99
A marca foi relançada em 2019. A produção ronda as 100 000 garrafas. Além de fruta madura e notas de chá e tisanas há também um lado salgado bem curioso.
Dica: um bom branco para acompanhar peixe em caldeirada, por exemplo.

Terroir Vulcânico Verdelho branco 2018
Região: Pico (Açores)
Produtor: Coop. Vitivinícola do Pico
Casta: Verdelho
Enologia: Bernardo Cabral
PVP: €25
Cerca de 20% do mosto fermenta em barrica usada, o restante em inox. É um dos três varietais, os outros são Terrantez do Pico e Arinto dos Açores.
Dica: notas salinas e de pedra raspada, acidez alta, bom requinte de conjunto apontando para peixes locais (veja, boca negra, atum) mas também ostras.

Ilha do Pico Licoroso 10 anos
Região: Pico (Açores)
Produtor: Coop. Vitivinícola do Pico
Casta: Verdelho
Enologia: Bernardo Cabral
PVP: €42,90
Está também em preparação o lançamento de um 20 anos, em meias garrafas. O lote mais novo que entrou neste vinho tinha 10 anos e corresponde ao lote de três colheitas.
Dica: meio-doce, sente-se a acidez elevada com verniz num ambiente citrino. Muito bem na boca, um perfeito vinho para queijos secos.

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