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Alicante Bouschet, a propósito do Mouchão

A casta do trio maravilha alentejano

Uma recente visita, em plena vindima, à Herdade do Mouchão, reavivou-me o gosto pela casta tinta Alicante Bouschet (AB). Provavelmente trazida do Douro pela família Reynolds, foi plantada no Mouchão e na Quinta do Carmo no séc. XIX, ambas as propriedades em mãos de familiares próximos. No Douro lá ficou residualmente nas vinhas velhas mas hoje readquiriu novo protagonismo na produção dos DOC Douro, como se confirma nas novas plantações da Quinta do Vesúvio, por exemplo. No Alentejo a casta renasceu nos anos 90 com o alargamento da área de vinha e cresceu de tal forma que hoje se pode dizer, sem exageros, que integra o trio maravilha onde se incluem algumas castas na moda, como Touriga Nacional ou Syrah e a clássica Trincadeira. Destas quatro, em combinações 3 a 3, temos o que mais habitualmente se produz na região. A vida da AB não foi fácil porque, na quinta do Carmo, foram arrancadas as vinhas velhas que originaram vinhos míticos, como o Garrafeira 87, obedecendo à vontade dos novos patrões do grupo Lafite Rothschild que adquiriram a marca e as vinhas em finais dos anos 80. Decisão apressada, baseada em experiências menos interessantes do AB em França, sem mostrar o mínimo entendimento do que a casta originava naquele local. Como manifestação primária de sobranceria, não estivemos mal…! Eles partiram, a empresa passou para Joe Berardo, e o AB não só regressou ao Carmo como se expandiu por toda a região. Casta tintureira (tem muita cor), produtiva (se não se tem cuidado produz “à maluca”), rústica no perfil mas bem adaptada ao calor, é uma variedade que ganhou a confiança dos produtores, tendo-se expandido para fora da planície e chegado, com boas prestações, sobretudo às regiões de Setúbal, Tejo, Algarve e Lisboa. Já no Mouchão, a primeira colheita no mercado foi a de 1954 e esse vinho (que tive o privilégio de beber há poucos meses) chegou a ter dois rótulos, um deles da Cooperativa Agrícola 25 de Abril, o que nos remete para os tempos da Reforma Agrária e da ocupação das herdades do Alentejo. O vinho estava glorioso e não digo por nostalgia, era um tinto que se bateria (e bem) com qualquer vinho do mundo dessa mesma data, quem sabe um Château Cheval Blanc 53 que igualmente muito me impressionou. Na nova era e após as replantações que se seguiram à desocupação, sobressaiu a vinha dos Carapetos, a melhor parcela da propriedade e de onde sai o topo de gama, ocasionalmente editado: o tinto Mouchão tonel 3-4 que hoje já se vende a preços de ourivesaria, um valor que se justifica pela originalidade e qualidade que apresenta. Já uma grande surpresa foram os brancos da casa (marca Dom Rafael) a mostrarem uma inesperada longevidade e que será comprovada pelo relançamento de um branco de 2011. Provado e comentado, não ficaram dúvidas: a região também consegue produzir grandes brancos que desafiam o tempo. Do AB fica-nos a certeza que não é casta da moda, é uma variedade que ajuda a exprimir o que o Alentejo tem de melhor. Há quem não goste mas, se assim não fosse, que graça é que tinha?

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Mouchão tinto 2018
Região: Alentejo
Produtor: Vinhos da Cavaca Dourada
Casta: Alicante Bouschet
Enologia: Hamilton Reis/Paulo Laureano
PVP: €44
Clássico tinto do Alentejo, mantém-se fiel aos lagares e aos tonéis onde ganhou fama, já secular.
Dica: ex-libris da casta, muito boa estrutura, vigoroso mas sem magoar, um tinto notável e que nos prende à casta, à casa e à região.

Convento do Paraíso tinto 2016
Região: Reg. Algarve
Produtor: Quinta do Convento do Paraíso
Casta: Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet
Enologia: Nuno Gonzalez/Luis Duarte
PVP: €19,50
A marca pertence agora à família Soares que, além da distribuidora no Algarve é também proprietária da Herdade da Malhadinha, no sul alentejano.
Dica: a ligação das duas castas está muito bem feita, sem protagonismos. O vinho tem volume e estrutura capazes de darem prazer desde já.

Monte da Ribeira branco 2019
Região: Reg. Alentejano
Produtor: José Maria da Fonseca
Castas: Antão Vaz, Verdelho e Sauvignon Blanc
Enologia: equipa de enologia da casa José Maria da Fonseca
PVP: €6,99
Produzido em Reguengos Monsaraz, feito em inox e pensado sobretudo para ser consumido jovem. Em tempos a marca identificava uma aguardente bagaceira deste produtor.
Dica: suave na fruta, discreto mas fresco, um bom parceiro para o quotidiano, seguramente vai portar-se bem à mesa.

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