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Os AC/DC voltam aos lagares

Vindima com Rock & Roll (ou não…)

Estamos em plena vindima. Em regiões como o Douro, onde os lagares ainda têm uma importância grande, está criado um problema. E dos grandes. As normas de distância social obrigam a mudar hábitos. Onde antes se viam pessoas abraçadas a pisar, com voz de comando de um mestre de cerimónias que ia debitando uns sons a compasso, hoje temos de assistir a algo diferente, seguramente menos atractivo. Em lagares já vi de tudo, desde a Katia Guerreiro a cantar fado nos lagares do Vesúvio, até aos lagares da Niepoort onde, depois da saída dos visitantes estrangeiros que vinham ver o “very typical” se dizia ao rapaz do acordeão que podia arrumar a coisa e saltava para primeiro plano o tijolo de onde se debitava AC/DC literalmente aos berros, com Highway to Hell e Shoot the Thrill a marcarem o novo compasso. É sempre uma festa, quer num caso quer noutro. Também assisti ao final da vindima em que a roga vinha fazer a “entrega do ramo” ao senhor da casa, como que a pedir que para o ano “se lembrem de nós”. Mas as coisas estão a mudar e quem sabe este ano entregam uma pen com um vídeo em 4K da pisa a pé, solicitando que seja colocado nas redes sociais, após edição cuidada. Mudam-se os tempos mudam-se os hábitos mas o lagar continua. David Guimaraens, enólogo da Taylor/Fonseca não tem dúvidas, é com lagares que se consegue fazer um Porto de letra grande, juntando no mesmo lagar várias castas em co-fermentação. Mas os tempos correm difíceis para se conseguir ter mão-de-obra (neste caso pé de obra) para assegurar a pisa. É por isso que muitos produtores já optaram pelos lagares com pisa mecânica o que oferece muitas vantagens: não tem hora de almoço, não descansa ao fim de semana, não dorme, tudo se programa e conseguem-se resultados equivalentes. Por essa razão a família Symington apenas mantém lagares com pisa a pé no Vesúvio; em todas as outras quintas a pisa é mecânica. E para que tudo seja à moda antiga, no Vesúvio só a luz eléctrica é diferente dos tempos de Dona Antónia, tudo o resto se faz com sempre se fez. Para os pequenos lavradores não há alternativa ao lagar clássico: não há cubas, não há sistemas de frio, não há dimensão que justifique o investimento em equipamentos de nova geração. Por isso a família e os amigos continuam a ser a mão-de-obra que se junta (com a perspectiva de uma grande jantarada) para concluir o resultado de mais um ano de labuta e de ansiedade. Conseguir que as uvas cheguem ao fim em bom estado de saúde é só por si uma enorme vitória. Com as alterações climáticas e as doenças que cada vez mais assolam a vinha, é imoral e injusto vir agora dizer que, ah e tal, não se pode pisar a pé por causa da proximidade. Afastados podermos andar mas não há volta a dar, o lagar está para ficar e continuará a sua história gloriosa depois desta coisa do Covid passar. E não é só no Douro que os lagares existem, são várias as regiões onde eles ainda tem uma palavra a dizer, da Bairrada ao Dão e ao Alentejo. Pode ser com AC/DC ou com música tradicional que não consta que as uvas se importem muito com o fundo musical.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Herdade do Rocim Espumante rosé 2017
Região: IG Alentejano (Vidigueira)
Produtor: Rocim
Casta: Touriga Nacional em parcela virada a nascente
Enologia: Catarina Vieira/Pedro Ribeiro
PVP: €14,30
Vinificação em inox e posterior segunda fermentação em garrafa com 12 meses estágio sobre borras.
Dica: salmonado na cor, aroma fino de fruta vermelha. Macio e fácil na boca, melhor para a mesa, envolvente e de acidez discreta.

Aveleda Solos de Granito branco 2018
Região: Reg. Minho
Produtor: Aveleda
Casta: Alvarinho
Enologia: Manuel Soares
PVP: €9,99
Fermenta e estagia em inox durante 9 meses com removimento de borras finas. Posterior estágio de 9 meses em garrafa.
Dica: grande equilíbrio de conjunto, enorme frescura e boa mineralidade. Um branco de muita personalidade.

Herdade do Peso Reserva tinto 2017
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape Vinhos
Castas: Alicante Bouschet, Syrah e Cabernet Sauvignon
Enologia: Luis Cabral de Almeida
PVP: €16
Apesar do ano quente, a zona da Vidigueira beneficia sempre de noites frescas que geram depois vinhos com boa frescura e equilíbrio. Aqui pratica-se uma viticultura sustentável, mais amiga do ambiente.
Dica: fruta vermelha bem madura, muito elegante na boca, dá uma prova de grande classe, com bom balanço entre corpo e acidez. Perfeito com carnes estufadas, por exemplo.

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