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Não é de 2019? Já não quero!

Isto de mudar hábitos tem que se lhe diga…

Um dia destes um produtor em conversa comigo lamentava-se da situação actual, da pouca venda de vinhos, da não rotação dos stocks e da grande incógnita que tem pela frente. “Se calhar o mais ajuizado era não fazer vinho este ano, dizia ele, vendia as uvas e pronto, não tenho mais chatices”. E então porque não fazes isso? indaguei. “Porque isto de fazer vinho é um vício, ver as uvas crescer, tratar delas e imaginar o potencial que têm e o grande vinho que dali poderá sair, torna quase doloroso pensar que vou vender as uvas. Este vício é danado”, concluiu. Mas havia mais: tinha recebido do distribuidor uma quantidade de vinhos rosés de uma colheita já atrasada e não sabia o que fazer com eles. O distribuidor já não vende e o consumidor já não quer. Isto levanta um problema sério que vai ser muito difícil de resolver: como convencer o consumidor que os vinhos brancos e rosés não têm sempre de ser consumidos no ano a seguir à colheita? Os vinhos que seleccionei esta semana têm também uma intenção: mostrar que muitos vinhos, nomeadamente os brancos, ganham muito com alguns anos de garrafa. O Falua, por exemplo, não o provei logo em 2018 mas também suspeito que o tipo de aromas que agora apresenta só se desenvolvem com o tempo em garrafa e, assim, tê-lo bebido à pressa…porque tem de ser logo no ano a seguir à vindima, teria dado muito mau resultado. E quando vemos alguns produtores, nomeadamente a empresa espanhola Lopez Heredia, da Rioja, a vender vinhos rosés só quando estes atingem os 10 anos, ficamos a pensar que algo está errado com a mania dos apressadinhos. Sejamos claros: hoje os enólogos sabem que se fizerem o vinho de uma certa maneira ele é melhor bebido muito jovem (salientando a fruta, destacando a acidez e a elegância); mas, se fizerem de outra, o vinho apresenta-se mais fechado logo de início e que vai precisar de tempo para abrir e mostrar as virtudes. Como exemplo, alguns Vinhos Verdes incluem-se no primeiro grupo mas muitos outros Verdes e, seguramente, os Alvarinho de Monção e Melgaço estão no segundo grupo. Também em prova recente de vinhos rosés pude provar um do Douro, do início deste século que não estava bom, estava óptimo. Naturalmente que também cabe aos produtores, aos restauradores e aos sommeliers fazerem o seu trabalho de darem a provar e arriscarem servir vinhos com mais idade. Há dois caminhos sempre possíveis: no restaurante, servir a copo e, com o melhor sorriso, trocar de vinho se o cliente não gostar; mas, se gostar, há aí que fazer alguma pedagogia e explicar que o tempo pode ser amigo do vinho, mesmo daquele que pensávamos ser para beber a correr; no produtor é bom que se tenha alguma imaginação para criar bebidas que possam ser vir de welcome drink, dos cocktails mais simples aos mais elaborados. Também na adega do produtor se podem ter sempre garrafas destas prontas a servir a copo: goste ou não, é oferta da casa mas, caso goste, tem direito a desconto numa caixa. É apenas um exemplo mas fica a ideia que há trabalho a fazer, há que não desanimar perante a tendência “primitiva” do “só bebo o que é jovem que para velho basto eu!”

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

António branco 2018
Região: Lisboa
Produtor: Marta Soares & Filhos (Distribuição: Barros, Freire, Martins e Mendes)
Castas: Vital
Enologia: Marta Soares
PVP: €18
As produções variam ente 4500 e 6000 garrafas/ano. Vinhas velhas na serra de Montejunto, cuja primeira colheita (ainda por António Carvalho, entretanto falecido) data de 2008. É um dos poucos varietais desta casta.
Dica: feito com intervenção minimalista, resulta muito bem, complexo, com personalidade. Fora de modas e manias, um Vital gastronómico. A conhecer.

Bico Amarelo branco 2019
Região: Vinho Verde
Produtor: Quinta do Ameal
Castas: Loureiro, Alvarinho e Avesso
Enologia: José Luis Moreira da Silva
PVP: €5,50
Produção de 62 500 garrafas. O vinho foi feito em inox e aí estagiou entre 4 a 6 meses antes do engarrafamento.
Dica: frescura citrina, perfeita acidez, bom perfil para branco de Verão.

Falua Unoaked Reserva branco 2017
Região: Reg. Tejo
Produtor: Falua
Castas: Arinto, Verdelho e Fernão Pires
Enologia: Antonina Barbosa
PVP: €14,99
As vinhas estão instaladas em terrenos arenosos e de calhau rolado. O vinho, tal como o nome indica, não teve contacto com madeira.
Dica: belíssima evolução, agora com uns aromas apetrolados muito atractivos, resulta numa prova em grande estilo, com acidez no ponto certo. Grande surpresa.

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