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Vale a pena tentar

Prova-se e às vezes reprova-se

A trabalhar em vinhos há mais de 30 anos é natural que muita coisa boa e muita outra ruim me tenha passado “pelo estreito” – termo usado na gíria – mas é sempre tempo de nos surpreendermos. Pela positiva e pela negativa. A mais recente experiência deste tipo aconteceu há uma semana: uma prova de vinhos portugueses e estrangeiros. Nada de competição, nada de comparações (pelo menos intencionais), apenas o gozo de estar à volta de uma mesa com um grupo de amigos. Não tenho grande paciência para aquelas jornadas em que todos estão à espera que os vinhos de fora se portem mal para, logo de seguida, surgirem com a estafada frase do “temos o melhor vinho do mundo”. Nestas provas em que há de tudo, desde vinhos muito caros e famosos até outros totalmente desconhecidos e baratos, é sempre possível ser surpreendido. Não restam dúvidas que muitas vezes nos portamos muito bem apesar dos preços ridículos dos nossos vinhos e que outros, com mais pergaminhos, mais história e tradição nem sempre se mostram à altura. Isto não nos deve ofuscar e temos de ser capazes de, se for caso disso, dizer que este está mal ou porque foi mal feito ou porque o produtor resolveu comprar as rolhas em saldo e os vinhos se mostram desequilibrados e pouco limpos. Há também quem aposte tudo no desequilíbrio, no desalinho e na imperfeição sugerindo – aos incautos – que o vinho do lavrador é mesmo assim e que só esse, por defeito, é o verdadeiro. Hoje não vou por aí e, antes, falar da prova que fiz há uma semana. Alguns dos vinhos tintos estrangeiros que provei apresentavam todos os defeitos que mais abomino em vinhos tintos: cheiro a drops e rebuçado, extracção excessiva, madeira a mais, graduação exagerada, açúcar residual. Poderia funcionar como índice de um livro que se poderia chamar: Vinhos da moda – segredos e técnicas. No tal livro ainda teriam lugar as técnicas de fazer vinhos com notas animais sem que o consumidor dê por isso e de como fazer passar por virtudes todos os defeitos e mais algum. No meio disto, alguns vinhos portugueses brilharam pela harmonia, pelo cuidado enológico e pelo preço quase simbólico que apresentam. Quanto é que me parece que este vinho vale? Esta pergunta, se a prova for cega, leva a resultados curiosos mas muito díspares: é então que reparamos que vinhos que nos parecem óptimos afinal são baratos e outros que não gostamos ou que têm defeitos abalançam-se nas centenas de euros. É assim que este mundo funciona e quem compra, quem paga, por vezes nem se preocupa com estes pequenos nadas, apenas quer provar um vinho pela fama que tem, pelo produtor, pelo enólogo, pela história da família ou apenas porque está na moda e só o bebe quem tem posses para isso. Mas nada de simplismos: há vinhos estrangeiros arrasadores, há vinhos portugueses miseráveis e o inverso também existe. Por isso são de evitar os preconceitos e as certezas. Primeiro prova-se e depois comenta-se. Umas vezes ficamos encantados outras vezes reprovam-se os vinhos, venham eles de onde vierem.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Casa do Arrabalde branco 2019
Região: Vinho Verde
Produtor: A & D Wines
Castas: Avesso, Alvarinho, Arinto
Enologia: Fernando Moura
PVP: €6,50
As vinhas, na família há várias gerações, situam-se na sub-região de Baião. Praticam uma viticultura sustentável, com preocupações ambientais. Tem outra marca – Espinhosos – que inclui Chardonnay.
Dica: muito fresco de aromas limonados, acidez muito viva, um branco claramente vocacionado para petiscos marisqueiros.

Quinta do Isaac tinto 2015
Região: Douro
Produtor: Quinta do Isaac
Castas: misturadas na vinha mas domina a Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Sousão.
Enologia: Pedro Sequeira
PVP: €45
A quinta, localizada em Chanceleiros, pertence a Isaac Paiva, radicado na Suíça, que a adquiriu em 2012. A área é de 1,36 ha (certificação bio); deste tinto fizeram-se um pouco mais de 4900 garrafas. Pisa em lagar, fermentação em inox e estágio em barricas de 500 litros, novas e usadas. Tem uma outra marca – Risu do Isaac.
Dica: Concentração evidente mas muito rigor na proporção fazem dele um tinto de grande gabarito para acompanhar pratos de carne vermelha. Melhorará significativamente em cave.

Soalheiro Oppaco tinto 2016
Região: Reg. Minho
Produtor: Vinusoalleirus
Castas: Vinhão, Alvarinho e Pinot Noir
Enologia: António Luis Cerdeira
PVP: €14
Feito em Melgaço, uma zona onde dominam totalmente os brancos mas onde ainda persistem algumas castas tintas, umas antigas outras recém-chegadas.
Dica: muito aberto na cor, aroma de fruta fresca, muito longe do tradicional Verde tinto. Um vinho guloso e muito gastronómico. Beba fresco.

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