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E agora?

As pandemias ajudam imenso os caloteiros

Há muito, mas mesmo muito tempo que sabemos que existe em Portugal uma triste regra praticada amiúde por muita gente: pagar e morrer, quanto mais tarde melhor! O mau pagador começa logo por ser o Estado e os atrasos exagerados nos pagamentos a fornecedores podem mesmo levar a falências que depois, por incrível que pareça, o Estado se apressa a exigir este mundo e o outro ao falido. Na restauração a regra vigora há muito e tudo indica que, com a pandemia, se vai agravar. Não se deve, contudo, abordar o assunto de forma simplista, tal como não se deve dizer que tal produtor (há vários exemplos no Douro) deve milhões à banca e que é um escândalo. Não é. Dever dinheiro à banca é normal no negócio, tal como na restauração dever aos distribuidores é habitual mas, quer num caso quer noutro, o importante é ir pagando, é ter em dia as prestações fixadas ou acordadas. Dizia-me um destes dias o dono de uma loja de vinhos, que apenas trabalha com quatro restaurantes, e que mesmo com tão poucos, tem….€50 000 na rua para receber. Agora pense-se o que os próximos tempos trarão a produtores cujo mercado assenta na restauração, às lojas que têm muitos restaurantes como clientes, a distribuidores que se verão aflitos para receber. Hard times, como dizia Dickens! Para nos alegrar um pouco, dois dos vinhos que hoje sugiro têm o que contar: o branco de Chardonnay da Chocapalha não pretende, longe disso, imitar a Borgonha onde a casta é obrigatória mas o desafio de usar uma variedade tão famosa é quase sempre irresistível e não há produtor que não pense: e se aqui a coisa funcionar? e se com este clima tiver bons resultados? e se este solo me permitir fazer algo de assinalável? São interrogações muito legítimas e que, com esta e outras castas clássicas, levam alguns produtores a não resistir à tentação. Nada a opor, sobretudo numa região que, com raras excepções, não estava bem servida de castas. O tinto de Pegos Claros é clássico em todos os sentidos: pela casta, pela região, pelos solos, pelos métodos de fabrico. O que muitos já esqueceram foi a enorme qualidade que a casta Castelão revela nestes terrenos de areia. É sempre bom recordar que, ainda no final do séc. XIX, existia no Poceirão a maior vinha contínua do mundo de então. Com quê? Muito provavelmente com Castelão, numa época em que os tintos eram mais valorizados que os brancos. A existência de terrenos de areia até nos poderia levar a pensar que seria possível fazer aqui vinhos de pé-franco (ser recurso ao porta-enxerto) uma vez que a filoxera não se dá bem nos solos arenosos. Lembremo-nos que foi por isso que Colares, na altura, sobreviveu incólume aos ataques do bicho, exactamente por serem terrenos de areia. Não deixaria de ser uma curiosidade e, provavelmente, não mais do que isso mas, em época em que toda a diferença é valorizada, há que tentar. Mas como é difícil receber (mesmo vendendo pouca quantidade), o melhor é mesmo fazer um pé-franco em quantidade limitada em Palmela, para o próprio e para os amigos.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Quinta de Chocapalha Chardonnay branco 2019
Região: Reg. Lisboa
Produtor: Casa Agríc. das Mimosas
Casta: Chardonnay
Enologia: Sandra Tavares da Silva
PVP: €9
A vinha tem cerca de 28 anos. Clima ameno e solos argilo-calcários ajudam ao perfil do branco. Fermentação lenta em inox e estágio sobre borras também na cuba. Nada de barricas.
Dica: boa fruta branca e notas citrinas, acidez muito bem integrada, o conjunto resulta aprazível e absolutamente consensual. Para o Verão, sem hesitar.

Pegos Claros Grande Escolha tinto 2016
Região: Palmela
Produtor: HPC
Casta: Castelão
Enologia: Bernardo Cabral
PVP: €25
Cepas com 100 anos originam este vinho. Solos arenosos, fermentado em lagar com 40% engaço. Teve 12 meses de estágio em barrica. Excelente representante da casta emblemática da região, hoje lamentavelmente preterida. 12 346 garrafas produzidas e 500 magnuns.
Dica: grande tinto, afinado no estilo, enorme na riqueza e a dar muito prazer a beber. Vale cada euro.

Alento tinto 2018
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Luis Louro/Adega Monte Branco
Castas: Aragonez, Trincadeira, Alicante Bouschet e Touriga Nacional
Enologia: Luis Louro/Inês Capão
PVP: €6,99
Vinhas na zona de Estremoz. Feito em inox, sem estágio em madeira. Fizeram-se 50 000 garrafas. É uma das apostas mais seguras nesta gama de preços. Tem também versões em branco e rosé.
Dica: muito expressivo na fruta madura, bom equilíbrio entre corpo e acidez, tudo a fazer dele um grande parceiro da refeição.

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