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O produtor no seu labirinto

Quando inovar se torna uma dor de cabeça

Termos muitas castas autóctones é razão de grande orgulho nacional. Contam-se por mais de 250 e a grande maioria delas nasceu aqui. Isso faz do país um grande “centro de criação”, muito mais do que um ponto de chegada de castas que outros povos para cá trouxeram. É verdade que não inventámos a roda, é verdade que muitas vieram cá parar trazidas por outros, desde os fenícios até aos gregos, dos espanhóis aos franceses. Mas o regozijo advém sobretudo das muitas que por cá nasceram, que não existem fora do país e das quais nos orgulhamos com toda a justiça, como a Arinto ou a Touriga Nacional, a Touriga Franca ou a Encruzado e Antão Vaz, só para citar algumas. Outras, de cá andarem há séculos já se aportuguesaram, como as Tinta Roriz e Jaen (espanholas), a Alicante Bouschet e Boal do Douro (francesas), para já não falar das chamadas “castas internacionais” que todos plantam em qualquer canto do mundo, como Chardonnay, Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon, Merlot ou Syrah. As nossas “especialidades”, aquelas que são residuais, que quase ninguém planta e que poderiam dar origem a vinhos que brilhariam (eventualmente) pela originalidade, essas, têm um futuro muito negro pela frente. Expliquemo-nos. As regras europeias, os programas de apoio à reconversão de vinha, os chamados Vitis, são muito exigentes na atribuição de dinheiros a fundo perdido. Exige-se que se plantem clones certificados de castas, fornecidos pelos viveiristas, asseguram-se assim (em princípio) que as varas plantadas estão isentas de viroses ou outras doenças. Acontece que, para nos ficarmos apenas na zona de Trás-os-Montes de onde seleccionei um vinho para hoje, dessa região eu poderia querer plantar brancas como Branda, Carrega Branco, Malvasia Parda ou tintas como Gorda ou Mourisco de Trevões e jamais teria direito a subsídio porque são castas que, ainda que sem certeza absoluta, muito dificilmente se encontram certificadas em viveiristas. Esta conversa vem a propósito do vinho dessa região que seleccionei hoje, feito com a casta Baga que, sabe-se, é mais característica do Dão e da Bairrada. O produtor quis plantar mais Touriga Nacional mas o viveirista já não tinha que chegasse e, vai daí, havia por ali Baga disponível e foi mesmo isso que o produtor decidiu adquirir. Em boa hora, diga-se, que o vinho é bem interessante mas a revelar que, talvez infelizmente, andamos todos a querer plantar a mesma casta por todo o lado. É também verdade que uma casta não é boa por ser antiga ou por ter um nome fantasioso, pode precisar de muito estudo para se apurar se tem virtudes que justifiquem a sua reprodução. Esse trabalho, absolutamente fundamental, está a ser feito em Portugal, de resto com grande vanguardismo em termos mundiais mas ao simples produtor, que até gostava de plantar uma casta mais original, resta uma solução: arcar com as responsabilidades financeiras e deitar às urtigas o subsídio europeu. Ora, se for para plantar 500 pés, a gente ajuda, agora se forem muitos os hectares, até que o subsídio dá jeito. Já se vê o resultado…

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

Palácio dos Távoras Parcela CB tinto 2016
Região: Trás-os-Montes
Produtor: Costa Boal Family Estates
Casta: Baga
Enologia: Paulo Nunes
PVP: €20
Vinhas na zona de Mirandela. A Baga chegou ali por acaso mas deu-se bem. A parcela identifica a filha do produtor, Carolina Boal.
Dica: média cor e estrutura, taninos bem finos e um ambiente de fruta madura mas com muita frescura. Surpreende pela positiva.

Quinta Nova Unoaked tinto 2018
Região: Douro
Produtor: Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo
Castas: cinco castas regionais
Enologia: Jorge Alves
PVP: €10,20 (venda também online em: https://shop.quintanova.com )
Deste vinho fazem-se 80 000 garrafas. O estágio é feito em inox. A ideia da ausência da madeira aponta para uma melhor percepção dos aromas das castas, sem máscaras.
Dica: vibrante na fruta, muito límpido de aroma, é um grande, grande amigo da mesa e um companheiro que não exclui ninguém. Deste todos gostam.

Pousio Arinto branco 2019
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Casa Agrícola HMR
Casta: Arinto
Enologia: Luis Duarte/Nuno Elias
PVP: €14
A Arinto é hoje parte integrante do lote clássico do Alentejo, sobretudo ao lado da Antão Vaz. Amada e querida por sempre conferir acidez ao vinho, independentemente do clima. Uma virtude e tanto.
Dica: muito vegetal verde, casca de limão, muita frescura de conjunto e um grande equilíbrio entre corpo e acidez.

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