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Desenhar num quadro negro

O futuro mais que incerto

O vírus lá anda, ora mais acirrado ora mais comedido, e estamos todos a tentar dar a volta à situação. Mas, enquanto nós andamos a meio-gás, a Natureza não quer nem saber e aí está a explodir, como é próprio da primavera. No caso da vinha verificou-se uma boa nascença em todo o país uma espécie de pré-anúncio de uma colheita farta. Infelizmente o que ninguém precisa agora é de uma colheita farta. Com a paragem da economia, com o fecho da hotelaria, da restauração e de muitos postos de venda, os produtores estão parados, estando em pior situação os que não têm os seus produtos nas grandes superfícies. O vinho não se vende, os stocks acumulam-se nas adegas, quer vinho já engarrafado quer em cuba, e o aproximar da vindima é como uma nuvem carregada, uma tempestade que se anuncia e para a qual ninguém tem guarda-chuva de jeito. Alguns sinais da evolução do clima dizem-nos que poderá haver quebras na produção em consequência da pressão de míldio e oídio que está agora a fazer-se sentir; calores fortes com humidade, seguidos de chuva e de novo calor são pérolas para aquelas doenças da vinha. Uma dor de cabeça para os produtores e uma verdadeira enxaqueca para quem tem pretensões a agricultura bio. Por norma ataques destes acarretam uma quebra na produção, variando os danos conforme a região e isso, por muito que custe dizer, pode ser útil a quem não tem o vinho vendido e não tem espaço na adega para a próxima colheita. Situações excepcionais obrigam a soluções de pronto-socorro que não se compadecem com a lentidão das decisões comunitárias. Vai ser preciso intervir, provavelmente vai ser preciso destilar excedentes procurando, com a intervenção do Estado, assegurar preços à produção, vai ser preciso, como já se fala no sector, de um benefício de bloqueio que permita manter o Vinho do Porto em reserva, só colocando no mercado o que este puder absorver e evitando quebras dramáticas dos preços. Mas teme-se o pior. Por cá, haver entendimento entre os vários operadores é objectivo que não é fácil e, por lá, pôr Bruxelas a decidir alguma coisa a tempo de salvar a próxima vindima é quase uma quimera. Estamos assim a desenhar o futuro num quadro negro e a caneta que nos saiu para a escrita é cinzento-escura. O quadro pode ser pessimista mas a falta de experiência em situações destas é tal que ninguém sabe exactamente qual a melhor fórmula. Dão-se exemplos de situações e vindimas anteriores em que foi também preciso intervir – como a vindima de 1945 – numa época em que a compra de vinho estava longe de ser uma prioridade para os consumidores. A reabertura dos restaurantes muito dificilmente aliviará a dor: muitos dos que abrirem (e ninguém sabe ao certo quantos não vão voltar a abrir…) muito provavelmente vão querer, numa primeira fase, escoar os stocks em vez de adquirir mais vinho. Todos vamos passar um mau bocado e, neste clima, rezar já não chega. Vai mesmo ser preciso intervir. É nestas alturas que se cava a separação entre os líderes e os frouxos.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores de mercado)

QM Alvarinho/Chardonnay branco 2017
Região: Reg. Minho
Produtor: Quintas de Melgaço
Castas: Alvarinho e Chardonnay
Enologia: Élio Barreiros
PVP: €49,90
Esta empresa é um dos principais vinificadores da região de Monção e Melgaço. Este, como inclui Chardonnay, não é Vinho Verde, é Regional. Um branco sofisticado e original, fermentou em barricas usadas e aí estagiou 18 meses. 1298 garrafas produzidas.
Dica: dueto da casta francesa mais famosa e da portuguesa com mais sucesso no momento. Amanteigado, junta aqui as notas de toranja com leves fumados, tudo muito complexo e rico.

Vallado Vinha da Coroa tinto 2017
Região: Douro
Produtor: Quinta do Vallado
Castas: vinha velha com 100 anos e cerca de 34 castas
Enologia: Francisco Olazabal/Francisco Ferreira
PVP: €50
É uma das vinhas que integra a quinta. Pouca extracção na fermentação e estágio de 18 meses em barrica de 2º e 3º ano. 4100 garrafas produzidas.
Dica: grande elegância, muito verdadeiro nos aromas, mais vegetais e silvestres que frutados. Merece copos largos e prova atenta. Luxo sem ser a preço de ourivesaria.

Quinta de S. Francisco tinto 2017 (a foto é da colheita anterior)
Região: Óbidos (Lisboa)
Produtor: Companhia Agrícola do Sanguinhal
Castas: Castelão, Aragonez e Touriga Nacional
Enologia: Miguel Móteo
PVP: €7
Esta é uma das três propriedades que integram a empresa, herdeira de Abel Pereira da Fonseca. Este tinto estagia um ano em barrica (60% nova).
Dica: um clássico renovado mas sem perder as origens. Boas notas vegetais, bom perfil, muito gastronómico e com boa relação qualidade/preço.

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