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O TRISTE PESO DA TRADIÇÃO ( artigo do DNA. Foi há 15 anos!)

Num país com tantas tradições vinícolas como o nosso, é difícil conjugar o passado com o presente. Como se vê pela carta deste leitor.

João Paulo Martins

Quando andava às voltas a pensar sobre o que escrever esta semana para o DNA, deparei com a carta do leitor de Santarém que ao lado reproduzimos (na parte que se pode transcrever, uma vez que outras partes menos sensatas foram rapidamente suprimidas…) e o assunto parece-me que tem actualidade suficiente para merecer mais algumas linhas.
O que a carta reflecte é um sentir que, muito presumivelmente, existirá nos países vinícolas com fortes tradições de consumo de vinho. É aí que será mais difícil aceitar todas as «modernices», como o leitor lhes chama, que vieram destronar os vinhos tradicionais. Muitas vezes é mesmo usada a palavra «tipicidade» para caracterizar aqueles vinhos que têm o sabor de outrora. O que se pode perguntar é: mas o que é isso de tipicidade? o que é um Bairrada típico? e um Verde tinto típico? e um alentejano branco típico? A resposta a estas perguntas, além de ser bastante subjectiva, corre o risco de nos levar para a zona mais sombria do vinho português. É melhor clarificar desde já que me parece que a tipicidade é o maior entrave ao sucesso dos vinhos portugueses, quer em Portugal quer no estrangeiro. Os vinhos chamados típicos – com a provável excepção dos generosos, Porto, Madeira e Moscatel – são praticamente imbebíveis pelos modernos padrões de consumo. E não se pode querer aceitar que os padrões de consumo não mudem nos vinhos se eles mudam em tudo o resto. Se hoje não se consegue ler um jornal ou uma revista com uma paginação dos anos 50 ou 60, se não aceitamos a verve política de 74 ou os gostos duvidosos do cinema português do tempo do Tony de Matos, porque que raio teremos que aceitar beber vinhos mal feitos, à pala da tipicidade?
Este tema é especialmente caro a consumidores de várias regiões, como o Vinho Verde (com o tristemente célebre Verde tinto), a Bairrada (com o inenarrável Baga que encortiçava a boca), o Ribatejo (com o carrascão) o Alentejo (com os brancos pesadões e alcoólicos e os tintos a cheirar a suor de cavalo). E convém não esquecer os apreciadores de um vinho hoje mais morto que vivo, o Colares.
Todos estes são maus exemplos de tipicidade, a tal que o país não perde nada em não se gabar dela. São vinhos que fazem parte do nosso património vinícola mas, por amor de Deus, há que perceber a diferença entre um património que se pode preservar porque há quem o aprecie (e esses têm direito a beber do que gostam), e a promoção desse património a ex-libris nacional. É preciso um pouco mais de calma. Ainda bem que os vinhos hoje estão menos típicos porque isso quer dizer que estão mais bem feitos, são mais agradáveis de beber e não envergonham o país em qualquer parte do mundo.
E, num país que por enquanto não tem imagem nenhuma no mercado mundial de vinhos de mesa, será que é possível usar sequer a palavra tipicidade quando se quer mostrar os nossos vinhos lá fora?

 

Se não sabe pergunte

«Sempre fui um grande apreciador do vinho tinto do Ribatejo, a que antigamente se chamava o «carrascão». Acho que eram vinhos duros e para homens de barba rija. No entanto, agora os vinhos do Ribatejo parecem-me todos muito amaneirados, parecem vinhos para senhoras. Será que isto não tem volta a dar? Mas onde é que já se viu andarmos todos a beber estas coisinhas que nos querem fazer passar por vinho tinto? Acha que o Ribatejo está perdido ou será que você concorda com estas modernices?»

António Falcão, Santarém

O leitor parece um pouco exaltado com esta situação mas não acho que valha a pena. Sobre esse tema dos vinhos amaneirados nem me pronuncio porque me parece que o nível da conversa poderia resvalar e depois lá se ia o verniz…
Pois não tenho boas notícias para o nosso ribatejano. É que a situação actual, com a proliferação dos vinhos a que depreciativamente chama «amaneirados», parece ser uma tendência que veio para ficar. Correndo o risco de perder um leitor, venho dizer-lhe que, na minha opinião, ainda bem que veio para ficar. Dito por outras palavras, eu acho que estas modernices, como lhes chama, é que vão salvar o Ribatejo, ao contrário do que afirma. Os actuais tintos têm tudo aquilo que faltava ao carrascão: são feitos com uvas de muito melhor qualidade, são vinificados em adegas bem equipadas o que significa que, além do bom equipamento, são muito mais higiénicas que as de antigamente, e são feitas por técnicos competentes que sabem o que estão a fazer e que (ainda bem, digo eu…) fazem os vinhos que o mercado quer consumir. Azar o seu que parece que o mercado não quer mais vinho carrascão.
Mas como também entendo que deve haver vinho para todos os gostos e para o gosto do mercado local – quer no Ribatejo quer noutras regiões do país -, acho que o carrascão não deve desaparecer. Se a felicidade passa por beber vinhos mal feitos, taninosos e que deixam a boca encortiçada, então que venha o carrascão para quem dele gostar. Vai ver que, com certeza, ainda descobre aí algum produtor que faz vinho para auto-consumo e que terá essas características. Sugiro que junte os tais homens de barba rija, falem muito de toiros e mulheres e bebam o carrascão. E, já agora, não se esqueçam de dizer no fim que estiveram a beber o melhor vinho do mundo.

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