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Da indiferença ao amor pode ser um passo

Até com as castas de uva se passa assim…

Foi depois de escolher os vinhos para a selecção desta semana que reparei no pormenor de todos eles incluírem a casta Syrah. Por coincidência, em recente almoço num restaurante pedi um vinho do Douro e notei que não era DOC Douro mas sim IGP Duriense (Regional) porque usava no lote a casta Syrah. Temos assim duas situações distintas: no Alentejo pode-se fazer um DOC com esta casta mas no Douro tem de ser Regional. O porquê desta diferença é simples e algo caricato. Repare-se: até finais dos anos 90 a casta Syrah, porque não estava incluída nos Estatutos, não fazia parte das variedades autorizadas no Alentejo para fazer vinho com indicação da casta. Se não vem nos Estatutos pouco ou nada há a fazer. A primeira vinha desta casta foi plantada na herdade das Cortes de Cima e, por via da interdição estatutária, o vinho não indicava objectivamente a casta no contra-rótulo mas, com um original jogo de palavras em inglês, indicava-se mesmo que era Syrah a casta escolhida. Nascia assim o tinto Incógnito que, curiosamente, continua a ser um dos melhores representantes daquela variedade do Ródano. A interdição durou pouco porque quando se fez a revisão dos Estatutos e se introduziram novas castas, a Syrah viu as portas abrirem-se de par em par. De então para cá ganhou espaço, dignidade e mesmo um carácter de “casta indispensável” aos vinhos do Alentejo. Portas abertas no sul, portas fechadas no norte. O assunto é polémico porque se pode questionar o porquê destas diferentes atitudes em regiões distintas. Pode dizer-se que o Douro está bem servido de castas e que não precisa da Syrah para nada mas tal dúvida pode-se também colocar em relação ao Alentejo ou qualquer outra região. A globalização tem este lado perverso de todos plantarem as mesmas castas, o que leva à descaracterização dos vinhos. Torna-se quase impossível dizer de que região é um tinto, se de Lisboa, Tejo, Setúbal, Alentejo ou Algarve, quando na sua composição entram as mesmas castas, por vezes até em percentagens semelhantes. O Douro e o Dão continuam a pugnar pela manutenção das variedades tradicionais mas isso, a ver pelo exemplo das zonas do sul, só vai durar…até que mudem os Estatutos! Nessa altura a mesma variedade desprezada será que passa a estrela da companhia? Mas, afinal, o que é que a Syrah tem? Diz quem a usa que a casta tem tudo e, principalmente, uma grande regularidade de produção, permitindo praticamente todos os anos uma boa colheita, com carácter, estrutura, taninos e bons aromas. Conjugada com a ubíqua Alicante Bouschet e a inevitável Touriga Nacional, a Syrah marca indelevelmente os vinhos do Alentejo. E a Castelão de outrora que se casava com Aragonez, Trincadeira e Alfrocheiro? Pois é, poucos se lembram já desses vinhos mas a verdade é que eles (também) foram responsáveis pela fama de que a região goza hoje. Mudam-se os tempos e as castas também. Resta esperar que alguns teimosos saudosistas não deixem morrer a tradição.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, correspondem a valores do mercado)

Ravasqueira Vinha das Romãs tinto 2017
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Soc. Agr. Dom Diniz
Castas: Touriga Franca e Syrah
Enologia: Pedro Gonçalves/Vasco Rosa Santos
PVP: €15
A propriedade fica em Arraiolos e pertence à família Mello desde 1943. A produção de vinho iniciou-se com a colheita de 2002.
Dica: tinto de grande equilíbrio, com alegria de fruta e bons traços minerais. Bebe-se com muito prazer.

Tributo tinto 2017
Região: Reg. Tejo
Produtor: Rui Reguinga
Castas: Syrah, Grenache e Viognier
Enologia: Rui Reguinga
PVP: €34
Produção de 2300 garrafas. Inclui 5% de uma casta branca (Viognier) como é tradição das Côtes-du-Rhône, região que serviu de inspiração a este tinto.
Dica: um grande vinho do Tejo, complexo, cheio de carácter, combinando fruta madura com notas de especiarias.

Essência do Peso tinto 2017
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Sogrape Vinhos
Castas: Alicante Bouschet e Syrah
Enologia: Luis Cabral de Almeida
PVP: €28,50
Dos 465 ha da propriedade, 120 são de vinha, maioritariamente tinta. A primeira colheita remonta a 1991. O Essência do Peso é uma criação recente.
Dica: tinto sólido e robusto, grande equilíbrio das notas balsâmicas com os frutos negros e a barrica, tudo servido por boa frescura que deriva da acidez.

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