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Vinho, cores e qualidades

Tradição para que te quero…

Por muito que nos custe afirmar, não somos imunes às modas. No caso dos
vinhos a ideia também se aplica. As modas estiveram muitas vezes
relacionadas, para o bem e para o mal, com a própria maneira como o
vinho era feito. Se recuarmos no tempo a cor mais habitual no vinho tinto
era ser palhete, resultado da vinificação conjunta de uvas brancas e tintas
espalhadas nas vinhas. Se fosse feito exclusivamente de uvas tintas o vinho
chamava-se vermelho. Nos brancos a história não regista a presença de
vinhos tão límpidos e brilhantemente citrinos como agora. Se feitos em
lagar com as uvas brancas pisadas a pé e a fermentar com as películas, os
vinhos resultavam muito pesados, carregados na cor, um pouco como
agora se apelidam os “orange wines” em que a cor laranja resulta
exactamente dessa fermentação de mosto com películas. A cor, como se vê,
foi tendo aceitação diversa ao longo do tempo. Na nossa tradição rural a
cor era sinónimo de qualidade e por isso se usava muito o Sousão no Douro
(também chamado de Vinhão, nos Verdes), o Alicante Bouschet ou Grand
Noir no Alentejo e, no Ribatejo, valorizava-se o carrascão. Estávamos
então no reino da cor, quanto mais carregado, melhor. Mas os tempos e as
modas mudam e hoje assistimos a um movimento inverso, puxando-se por
castas que sempre foram meio desprezadas exactamente por não terem cor,
como a Bastardo, Alvarelhão, Rufete ou Espadeiro, só para citar algumas.
A cor – que umas castas têm mais do que outras – deixou assim de ser
factor determinante na avaliação da qualidade, também por força do
exemplo dos tintos da Borgonha que, sendo feitos de Pinot Noir, têm tudo
para se queixar da falta de cor. A verdade é que não deixaram de ser
famosos mesmo fazendo vinhos abertos. As cores carregadas, que
resultavam de excessiva extracção durante a fermentação e estágio em
madeira nova (que ajuda a fixar a cor) já estiveram mais na moda, porque
iam ao gosto do guru Robert Parker, o crítico que durante décadas ditou as
regras do conceito de qualidade: muita cor, muita concentração, muita
madeira nova muito perfil “after-eight” com notas de chocolate e mesmo
alguma doçura. Esta desgraça, que até afectou regiões clássicas como
Bordéus, tende agora a desaparecer, acompanhando a reforma do guru.
Ele já não prova e deixou o trabalho a cargo de críticos que, embora
assinando a nota como RP, não são RP, alguns deles mais arrogantes que

inteligentes. Voltando à nossa cor, temos então à disposição – e muitos mais
irão surgir – vinhos menos carregados, muito mais agradáveis de beber,
seguramente muito gastronómicos, que dão prazer, não cansam e deixam
saudades. E também temos os brancos que fermentaram com as películas –
o método chama-se curtimenta – mas agora num registo de muito maior
equilíbrio. Sabemos mais, sabemos fazer melhor e somos capazes de
reproduzir modelos antigos com novas roupagens. Dizem que é a isto que
se chama progresso…

Sugestões da semana:

(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Vallado Três Melros branco 2018
Região: Douro
Produtor: Quinta do Vallado
Castas: Rabigato, Códega, Viosinho, Gouveio, Arinto e Alvarinho
Enologia: Francisco Olazabal/Francisco Ferreira
PVP: €9
É uma nova marca do Vallado e também tem edição em tinto com o
mesmo PVP. Cerca de 85% do vinho estagiou em inox e o restante em
barrica usada.
Dica: um branco despretensioso, com corpo e boa nota de fruta.
Gastronómico.

The Lost Corner tinto 2017
Região: Trás-os-Montes
Produtor: Maria Antónia Azevedo (Valle Pradinhos)
Castas: Tinta Amarela, Tinta Roriz e Touriga Nacional
Enologia: Rui Cunha
PVP: €19,50
O vinho teve um estágio de 20 meses em barricas de 500 litros. Fizeram-se
3630 garrafas e 103 magnuns. A Tinta Amarela (Trincadeira) é a marca
distintiva desta zona.
Dica: muito bom o diálogo entre as três castas, ainda tem taninos finos,
podendo assim ser consumido ou guardado. Perfeito para carnes grelhadas.

 

Quinta do Monte d’Oiro Petit Verdot tinto 2015
Região: Reg. Lisboa
Produtor: José Bento dos Santos
Casta: Petit Verdot
Enologia: Graça Gonçalves
PVP: €20
A vinha está em agricultura biológica. O clima é influenciado pelo mar,
com temperaturas amenas e a zona é especialmente ventosa. A casta é
originária de Bordéus.
Dica: muito boa fruta e vegetal verde, grande elegância, frescura atractiva.
Um grande companheiro, a beber desde já.

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