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Aprender só nos pode fazer bem

Algumas lições bordalesas

Estar presente numa prova dos grandes vinhos de Bordéus é coisa que não se questiona, é ir e a correr, se possível. Foi há uma semana que estive em Londres na prova anual dos tintos de Bordéus, neste caso da colheita de 2015. Levada a efeito pelo Instituto dos Masters of Wine a prova, com grande rigor organizativo, serviço perfeito e horários ao minuto, teve muita gente a provar, desde a velha guarda dos primeiros Master of Wine (MW) até novos provadores vindos de diferentes partes do mundo. O título de MW começou a ser atribuído em 1972 e apenas existem 390 felizardos, em 30 países, que estão autorizados a usar as duas letras mágicas a seguir ao próprio nome. Para isso tiveram de cumprir um programa rigoroso, teórico e prático, muito difícil, muito caro e também muito desanimador porque muitos são os candidatos e poucos os laureados. Já tivemos vários candidatos nacionais mas até agora ainda ninguém conseguiu este título. A prova contemplava vinhos tintos das várias sub-regiões de Bordéus e brancos licorosos de Sauternes, num total de 98 vinhos diferentes. Cada provador provava o que queria, as vezes que quisesse, com excepção dos sete magníficos que só podiam ser provados uma vez: Haut-Brion, Lafite, Margaux, Mouton Rothschild, Cheval Blanc, Angelus e Chateau d’Yquem. Provei cerca de 60, entre os que já conhecia e outros em que me estreei e foi muito curioso verificar que os 2015 se mostraram de rara elegância e finura, sobretudo nos vinhos da chamada margem esquerda. Os da margem direita, Saint-Émilion e Pomerol revelaram-se excessivamente alcoólicos (vários com 15º) o que normalmente acarreta consequências na delicadeza dos vinhos; ficam mais pesados, mais cansativos mas também mais atractivos para muitos wine writers que se renderam à margem direita. Pois no meu caso não tive qualquer dúvida: foi na margem esquerda – Margaux, Saint Julien e sobretudo Pauillac que encontrei os vinhos que justificam esta crónica. Porquê? Porque estes tintos mostraram um extraordinário trabalho de barricas, com as madeiras perfeitamente integradas no conjunto, resultando também em provas de boca onde os taninos, mesmo nos que os apresentavam mais agrestes, se mostraram muito finos e bem integrados. É claro que a acidez é sempre boa e sobretudo no ano de 2015 que gerou vinhos elegantes, resultado de um estio moderado de temperatura e muito longo, o que permitiu maturações muito equilibradas. Provavelmente não serão dos vinhos mais longevos mas mostram um saber muito evidente do como fazer e como fazer bem. E sabendo-se que o Cabernet Sauvignon é aqui a casta rainha é muito bom ver que um bom trabalho de viticultura e enologia pode colocar a casta no sítio certo, sem que marque o vinho em demasia. São melhores que os nossos? Não, são diferentes, mas em termos da qualidade e perfeição técnica deixam-nos a pensar. E é também por isso que devemos, de mente aberta, provar o que os outros fazem.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Herdade Aldeia de Cima Reserva branco 2017
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Herdade Aldeia de Cima do Mendro
Castas: Arinto, Alvarinho e Antão Vaz
Enologia: Jorge Alves e António Cavalheiro
PVP: €15
Este é o novo projecto de Luísa Amorim na zona da Vidigueira. Ali se procura tirar partido das encostas da serra do Mendro para gerar vinhos originais e diferenciados.
Dica: o branco mostra muito boa frescura citrina, um bom equilíbrio entre aroma e sabor. Gastronómico, não precisa de guarda. Polido, elegante, com carácter.

Duorum branco 2018
Região: Douro
Produtor: Duorum Vinhos
Castas: Rabigato, Gouveio, Arinto, Códega do Larinho
Enologia: José Maria Soares Franco
PVP: €12,50
Uvas do Douro Superior (Castelo Melhor), vinhas plantadas em terrenos xistosos. Cerca de 30% do mosto fermentou em barrica.
Dica: bom o equilíbrio entre a fruta branca e a madeira, aqui muito bem integrada no conjunto. Sem dúvida atractivo e polivalente à mesa.

Esporão Vinho de Talha tinto 2018
Região: Alentejo
Produtor: Esporão
Casta: Moreto
Enologia: Sandra Alves/David Baverstock
PVP: €25 (no enoturismo do Esporão)
Vinha com 80 anos plantada em pé-franco, em terrenos arenosos. Fermenta em talha revestida a pez-louro, uvas só parcialmente desengaçadas. 4650 garrafas.
Dica: aberto na cor, aromas antigos com notas vegetais mas polido e sem excesso de aromas de resinas. Uma curiosidade, em homenagem às talhas alentejanas.

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