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Inquietações outonais

Sim, mesmo com vindima feita não há descanso

A vindima está a chegar ao fim. É o fecho de um ciclo que começou muitos meses antes, durante os quais as angústias e os medos foram mais que muitos. O certo é que se está a conseguir chegar ao fim sem chuva. Não que ela não seja precisa (estamos em seca há muito tempo…) mas todos rezam para que não caia exactamente na altura da vindima. Umas gotas ou um dia de chuva podem ser abençoados mas, se a coisa for violenta, apodrecem as uvas e lá se vai o trabalho do ano. Com as cubas cheias e o mosto a fermentar sobressaem novas preocupações. É caso para olhar para ela (a cuba) e indagar: como é? Vais levar essa fermentação direitinho até ao fim, ou não? Uma fermentação bem conduzida e acompanhada é condição sine qua non para se ter um bom vinho, um produto com saúde e que tenha capacidade de viver bem em garrafa. É mais um (e apenas mais um) momento em que o vinho não se pode deixar entregue a si próprio. Aqui, como em muitas outras etapas, exige-se a intervenção do produtor. Alguns “acham” que intervir não é necessário mas a verdade é que é preciso acompanhar, decidir, interferir, sempre com o mesmo objectivo: conseguir um produto são, hoje, amanhã e nos próximos anos. Esta atitude, que envolve sensatez, bom-gosto e consideração pelo vinho, deverá ser capaz de respeitar as diferenças e especificidades deste vinho em relação àquele. Não se trata de fazer tudo igual, o vinho da planície deverá revelar-se diferente do da montanha, o da costa não pode ser igual ao do interior. Quero com isto dizer que há enólogos que são capazes desta “arte” individualizadora e outros que tendem (por exigências do negócio, imagina-se…) a fazer tudo by the book, sempre com a “caixinha da saúde” por perto para maquilhar os vinhos. Gostamos desses vinhos? Nem por isso, são demasiado banais para entusiasmar seja quem for! Mas esses são, há que lembrar, os vinhos que todos os consumidores bebem e compram nos supermercados. A poesia que gostamos de associar ao vinho, a história que muitos deles carregam são, como alguém disse, assunto para os “intelectuais” do vinho. Voltando à adega, passada a fase das fermentações é o momento de decisões importantes, após prova das várias cu: o que vai para barrica e que tipo (nova ou usada), o que fica na cuba depois do vinho passado a limpo, etc, etc, uma listagem infindável de decisões que irão traçar o perfil final do vinho. Aqui, de novo, não há vinho sem decisões, sejam elas de que tipo forem e por isso se diz que o vinho é uma criação do homem. Sempre assim foi e continuará a ser, enquanto, claro, a mãe natureza for dando uma mãozinha e ajudando nesta empresa a céu aberto. E logo que acabem todas as vindimas pode começar a chover que a terra está sedenta. Bem, não sei se quem produz azeitona e tem oliveiras de sequeiro estará muito de acordo mas, já se sabe, não é possível sol na eira e chuva no nabal…

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

D. Graça Bastardo tinto 2018
Região: Douro Superior (na fronteira com a Beira Interior)
Produtor: Vinilourenço
Casta: Bastardo
Enologia: Virgílio Loureiro
PVP: €10
A casta é muito antiga no Douro e gera tintos com muito pouca cor, uma das razões pela qual foi durante muito tempo ignorada. Conhece hoje um renascimento, havendo vários produtores interessados nela.
Dica: elegante, fino e intensamente gastronómico, é um vinho muito agradável, fácil de gostar e beber. Tudo vantagens, além dos 11,5% de álcool. Que tal com castanhas?

Tapada do Chaves branco 2017
Região: Alentejo
Produtor: Tapada do Chaves (Fund. Eugénio de Almeida)
Castas: Arinto, Assario, Fernão Pires, Tamarez e Roupeiro
Enologia: Pedro Baptista
PVP: €14
Nova edição deste clássico alentejano, com origem em Portalegre. A vinha velha de branco já tem mais de 100 anos; a outra que também contribui para este vinho foi plantada em 2007.
Dica: grande branco de Outono, com peso, de graduação elevada mas com imensa aptidão gastronómica. Um branco de alma tinta.

Porto Quinta da Côrte vintage 2017
Região: Douro
Produtor: Quinta da Côrte
Castas: castas misturadas na vinha. Todas as cepas estão geo-localizadas e identificadas.
Enologia: Marta Casanova
PVP: €69
A quinta, actualmente pertença de franceses que também têm vinhas na Provence e em Itália. É uma das quintas mais fotografadas de toda a região.
Dica: um Porto escuro, denso e balsâmico, um vintage de taninos finos e muita estrutura. Sem dúvida para a cave mas…depois de provar agora uma garrafa.

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