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O retrato do país nas prateleiras

As feiras são um bom espelho

Os meses de Setembro e Outubro são normalmente os momentos escolhidos pelas grandes superfícies para levarem a cabo as feiras de vinhos. Os folhetos convidam, as sugestões são muitas e a oferta é enorme. É assim há muitos anos mas as feiras nem sempre tiveram a mesma filosofia. Aqui há uns bons 25 anos, as feiras eram momentos-chave no calendário dos consumidores: era ali que algumas marcas se apresentavam ao público, com as novas colheitas a servirem de chamariz para atrair interessados. “Este é para a feira”, ouvia-se com frequência junto de produtores que, assim, traziam as novas safras para as apresentar nas grandes superfícies. Escusado será lembrar que a correria no dia da abertura das feiras era coisa séria e, não raramente, algo frustrante porque, nas grandes marcas, havia uma ou duas garrafas que serviam de isco mas não alegravam todos os que queriam comprar vinhos. Era, ainda assim, uma festa que até levava a que algumas dessas grandes superfícies fizessem jantares de apresentação das suas melhores garrafas que estariam na feira daí a dias. Hoje não é assim. As grandes marcas não esperam pelas feiras para se mostrar e o que lá há mais é vinhos de boa relação qualidade/preço. A subida de qualidade dos vinhos das gamas mais baixas será, porventura, a verdadeira diferença das feiras de antigamente com as de agora. Ainda que quase inacreditavelmente é verdade que encontramos nos catálogos vinhos abaixo de €2, valor que muito dificilmente pagará os custos da produção e que, ou serve para escoar stocks e esvaziar adegas, ou corresponde a vinhos oriundos de zonas/regiões onde a produção por hectare seja anormalmente elevada o que, como sabemos, tende a reduzir (e muito) o custo final do produto. É verdade que as feiras têm de atender a todas as bolsas e que, por muito que nos fosse agradável imaginar, a verdade é que muito consumidor tem a sua tabela “normal” de aquisição até €3 e que, no Natal e só no Natal, sobe até €5 por garrafa. O espelho do país é este: há nas feiras vinhos baratos que podem alegrar uma mesa sem desmerecer mas que estão a anos de luz de um vinho que tenha alma, história, que nos diga algo sobre o lugar de onde veio. Esses, que são os vinhos do nosso contentamento, são por norma produzidos em quantidades muito baixas, vêm de vinhas de baixa produção e que, por isso, são muito mais caros do que atrás referimos. Por exemplo, no Douro é normal falarmos de vinhas que produzem 4 ou 5 toneladas por hectare e em Almeirim há vinhas que chegam às 30 toneladas/hectare. É assim normal que se possa vender muito mais barato os vinhos das vinhas muito produtivas. Uns contam-nos histórias, transmitem-nos sentimentos e, em alguns casos raros, mesmo uma emoção estética; outros são companheiros da refeição, aqueles que bebemos hoje e amanhã já nem do nome nos lembramos. Este fenómeno não é específico de Portugal, antes comum a todos os velhos países produtores. Fiquemo-nos pela satisfação do desaparecimento, de vez, dos maus vinhos. Os imbebíveis de outrora (de muitas matizes) não deixaram saudades.

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Quinta das Bágeiras Cercial branco 2016
Região: Bairrada
Produtor: Mário Sérgio Nuno
Casta: Cercial
Enologia: Rui Moura Alves
PVP: €55
O mosto fermentou em barrica usada e foi engarrafado sem filtração. Apreciada pela elevada acidez que confere aos vinhos, a Cercial aparece mais vezes em lote com outras variedades. Cerca de 500 garrafas produzidas.
Dica: o lado rústico combina-se na perfeição com a excelente acidez, um branco original e anguloso, como tantos consumidores gostam.

Olho de Mocho Reserva tinto 2017
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Rocim
Castas: Alicante Bouschet e Trincadeira
Enologia: Catarina Vieira/Pedro Ribeiro
PVP: €22,40
Fermentou em cuba de cimento e estagiou em barricas de 500 litros durante 16 meses.
Dica: muito acessível no perfil, macio, balsâmico, vocacionado para a gastronomia regional, sobretudo na carne de porco.

Porto Quinta da Romaneira LBV 2013
Região: Douro
Produtor: Soc. Agr. da Romaneira
Casta: castas misturadas
Enologia: António Agrellos (à data)
PVP: €17,50
Esta é uma das maiores quintas do Douro, com grande frente de rio, acima do Pinhão e hoje pertença de um brasileiro. Também produz vinhos DOC Douro e azeite.
Dica: um grande Porto a um preço imbatível, perfeito para queijos secos ou sobremesas que incluam frutos vermelhos.

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