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Sim ou não às castas estrangeiras?

A dúvida tende a ser eterna

Os vinhos que hoje sugiro têm em comum o facto de, em parte ou na totalidade do lote, incluírem castas vindas de fora. Nos três casos estamos a falar de castas que normalmente associamos com vinhos franceses. O Bons Ares tem Sauvignon Blanc e a casta está nesta quinta desde o início da produção em finais dos anos 80. A razão, expressa na altura pelo enólogo João Nicolau de Almeida, era que o Sauvignon Blanc serviria de “casta melhoradora” para as brancas da região. Hoje já ninguém usaria aquela expressão mas é verdade que, à época, as castas brancas eram usadas apenas para Porto e muito pouco se sabia sobre a vinificação para DOC Douro. A casta francesa, sempre muito afirmativa em termos aromáticos e expressiva na boca, iria assim ajudar a tradição. A verdade é que o modelo vingou e hoje aquele é, consistentemente, um dos brancos que mais prazer proporciona. A variedade é das mais divulgadas no mundo e origina vinhos fantásticos mas também “coisas” mais ou menos imbebíveis. Depende de muitos factores e da “mão” que mexe nas uvas. O Monólogo foi feito com a ubíqua Chardonnay, plantada em todo o mundo. Começou-se por tentar copiar o estilo da Borgonha mas depois os produtores resolveram tentar que ela exprimisse o local onde estava plantada em vez de estar a imitar o inimitável. Por cá já conheceu dias mais frenéticos mas continua a ser uma grande casta, muitas vezes usada em lote com resultados bem interessantes, ganhando com a fermentação em barrica; aqui há uns 15/20 anos abusava-se da barrica nova mas cada vez mais são as barricas de 2ª e 3ª utilização que ganham espaço para fermentar brancos. O consumidor aplaude e a Natureza agradece, uma vez que menos árvores são abatidas. A Romaneira usa uma casta de Bordéus mas onde entra nos lotes em percentagens homeopáticas, tipo 3 ou 4%. Lá,, porque não amadurece mas cá, em clima quente, a casta parece dar-se muito bem e o Alentejo é exemplo disso. Poderá mesmo ser uma casta para enfrentar com galhardia as alterações climáticas. A pergunta que fica sem resposta é: será que precisamos destas castas vindas de fora? Já que temos tantas variedades nacionais, não nos bastaremos apenas com elas sem necessitar de “apoios externos”? O assunto, já muito falado e debatido não tem propriamente resposta única. Por um lado, as castas são por natureza viajantes e nenhuma região é dona desta ou aquela; em segundo lugar, ninguém deve cercear a iniciativa do produtor que pode gostar da casta ou de experimentar porque tem uma boa localização para ela; em terceiro, porque em termos de negócio pode abrir portas, sobretudo se em associação com castas nacionais. É com as estrangeiras que afirmamos a nossa identidade? Claro que não e há muito tempo que os produtores já perceberam isso. Por isso as curiosidades feitas com variedades de fora continuarão a ser isso mesmo. E quem não gosta de provar coisas diferentes?

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Bons Ares branco 2018
Região: Reg. Duriense
Produtor: Ramos Pinto
Castas: 60% de castas tradicionais e 40% de Sauvignon Blanc
Enologia: Teresa Ameztoy
PVP: €9,50
A quinta situa-se em zonas altas (600 m) e em solos graníticos, muito diferente das zonas vocacionadas para Porto, mas que hoje começa a ganhar muitos adeptos para a produção de vinhos tranquilos.
Dica: mais uma excelente edição, com harmonia e complexidade em todas as etapas do consumo.

Quinta da Romaneira tinto 2015
Região: Reg. Duriense
Produtor: Soc. Agr. da Romaneira
Casta: Petit Verdot
Enologia: António Agrellos
PVP: €23,50
Uma das maiores quintas do Douro, um pouco acima do Pinhão, pertença hoje de um investidor brasileiro. Apoio técnico da quinta do Noval.
Dica: muito fruta vermelha bem madura, um tinto carnudo e cheio. Um sucesso.

Monólogo branco 2018
Região: Reg. Minho
Produtor: A & D Wines
Casta: Chardonnay
Enologia: Fernando Moura
PVP: €8
Vinho de agricultura biológica, produzido na região do Minho. É Regional precisamente por ser feito de casta não autorizada para DOC.
Dica: na continuação das boas edições anteriores, temos um branco com volume, gordo mas com boa elegância e óptima acidez.

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