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As tristezas do negócio

Quanto mais ouvimos…pior

A conversa até estava animada, entre futebol, vinhos, clima e política, coisas banais, portanto. O meu interlocutor, que é distribuidor de vinhos, pediu para atender o telefone. Do outro lado um pedido: um hotel da região quer adquirir vinhos para um casamento e, com a devida antecedência, vem reservar o pedido. Isto, pensamos logo, irá movimentar umas boas caixas de vinho e entre brancos, tintos e espumantes, há aqui espaço para um negócio com algum volume. A parte seguinte do pedido era, no entanto, menos interessante: o dito hotel quer vinhos até um limite de €1,5 ! Leu bem, até um euro e meio. O distribuidor acaba por recusar o negócio porque “a este valor por garrafa não só não se ganha dinheiro como os vinhos que se servem são tão básicos que em nada dignificam a própria cerimónia”. E continua, dizendo-me que só se a venda for acima de €3 a garrafa é que já se pode ganhar mais uns quantos cêntimos. Que esta é a realidade da maioria dos casamentos já todos sabemos: come-se muito mal e bebe-se ainda pior, independentemente do segmento vínico que estejamos a falar. É que a desgraça começa no gin tónico inicial, cuja garrafa custou €3 na grande superfície e que só muito, mas mesmo muito longinquamente é que tem qualquer semelhança com um bom gin, prolonga-se pelos vinhos da refeição e acaba no espumoso mais reles que havia no mercado. O que é mais triste, no meio desta história, é que há empresas que não só vendem a este preço como ainda dão caixas e caixas à borla se a quantidade adquirida for razoável, tipo, “compras 20 e levas outras 20”. Assim com frequência se escoam stocks, se esvaziam adegas que “o espaço vai ser preciso para a nova colheita” e se estraga o negócio. Em boa verdade, vender vinho a €1,5 só é rentável se se venderam milhões de garrafas, situação que não corresponde à maioria dos intervenientes no negócio do vinho. Muitos destes produtos resultam de compras feitas pelas empresas de vinho a granel, vinhos sem indicação de origem, sem certificação, sem alma mas com capacidade de estragar o negócio a todos os outros que acabam por se ver entre a espada e a parede: àquele preço perdem dinheiro mas vêem chegar o momento em que o escoamento de stocks é uma obrigação e é nesse momento que se fazem os disparates, que se vende ao preço da chuva o que deu trabalho e teve custos bem mais sérios. Este é o negócio do vinho de que pouco se fala mas que corresponde a volumes muito consideráveis. E se o clima por cá continuar como está e a colheita for boa em quantidade, vão ser os nossos graneleiros a rirem-se a bom rir que lá pelas “franças” e pelas “espanhas” a canícula deve ter queimado muita uva e vai faltar vinho. É uma triste vida mas é a crua realidade. Os negócios de cêntimos vão continuar e os casamenteiros, muito atarefados no mês de Agosto, não terão mãos a medir. A propósito: não se arranja aí nada a €1,20?

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Adega Mãe Touriga Franca tinto 2016
Região: Reg. Lisboa
Produtor: Adega Mãe
Casta: Touriga Franca
Enologia: Anselmo Mendes/Diogo Lopes
PVP: €9
Faz parte de uma colecção de vinhos varietais que este produtor já tem no mercado. Teve estágio de 12 meses em barrica de carvalho.
Dica: concentrado, rico na fruta, boa presença de madeira. A boca macia permite uma prova excelente desde já.

Esporão Colheita tinto 2017
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Esporão
Castas: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Aragonez
Enologia: David Baverstock/Sandra Alves
PVP: €9,99
Vinho em modo de produção biológico. Castas fermentadas em conjunto em lagares e seguidamente ovos de betão onde estagia 6 meses.
Dica: muito fresco no aroma e sabor, muito elegante, boa presença da Touriga. Um tinto sedutor e muito gastronómico.

Couquinho Superior branco 2018
Região: Douro
Produtor: Quinta do Couquinho
Castas: Viosinho, Rabigato e Gouveio
Enologia: João Brito e Cunha
PVP: €11,50
A propriedade situa-se no Douro Superior. Tem uma gama variada de vinhos, sobretudo tintos.
Dica: um branco moderno, com toda a aposta na fruta citrina mas com acidez capaz de lhe permitir viver bons anos em garrafa.

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