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O meu vinho bom é melhor que o teu

Será que tendemos aos extremismos vínicos?

Periodicamente surgem modas e tendências que se instalam no sector do vinho. Tal como em muitas outras circunstâncias, podemos olhar para o assunto como crise ou como oportunidade. Andando nisto há 30 anos, quase que posso dizer que já vi de tudo: vi chegarem com ares de salvadoras da pátria as primeiras castas estrangeiras como direito a nome no rótulo – foi o tempo do Chardonnay e o do Sauvignon Blanc, do Cabernet Sauvignon e do Merlot. Corriam então os anos 80 e logo se levantou um clamor que o vinho português estava perdido e que a invasão iria ditar o fim da nossa identidade. É verdade que algumas castas que por cá abundavam, apesar de portuguesas, não adiantavam nem atrasavam, apenas produziam muito mas a verdade é que não passou de um leve sismo, nada mais. Depois ficámos tipo basbaque a olhar para os vinhos muito extraídos, de elevado teor alcoólico, com excesso de madeira e de maturação, os chamados vinhos After-Eight. Dizia-se que eram à moda e imagem de Robert Parker, o guru americano da crítica de vinhos. A verdade é que, pensando numa possível boa nota do tal crítico, muito produtor andou a engolir sapos, a fazer vinho de que não gostava nem queria beber mas a classificação mágica que poderia obter foi falando mais alto e, mesmo em zonas clássicas como Bordéus, fez-se muita asneira. No entanto, nos vinhos como na arquitectura ou na música, há um periódico retorno aos cânones clássicos e assim (obrigado, Senhor…!) lá passou a moda dos vinhos/compota e hoje temos vinhos de menor graduação, com menos extracção, muito menos barrica nova e que podem exprimir melhor o local de onde vêm. Mas os insatisfeitos não descansaram e eis que estamos de novo a atravessar um período de opções radicais que sugerem um certo retorno a práticas antigas, agora travestidas com novos conceitos. Temos os adeptos dos vinhos biológicos, temos os que defendem a biodinâmica, temos os que acham que o sulfuroso é o maior inimigo do vinho e que só os vinhos não intervencionados são merecedores de crédito. A discussão vai prolongar-se até porque cada facção ainda está a arregimentar tropas e as armas a usar ainda não estão todas reunidas. O meu vinho é melhor que o teu porque vem de agricultura biológica; nem penses, eu, que pratico a biodinâmica é que só o mais respeitador da Natureza! Ora, ora, diz outro, o meu é um vinho natural, não uso nada, o vinho faz-se por si. Andamos nisto a esgrimir argumentos, todos, naturalmente, achando que detêm a verdade e que os que não fazem parte do clube não passam de uns escroques vendidos às empresas químicas. Vamos assim continuar nesta conversa que, como se imagina, interessa e motiva 0,00001% dos consumidores. Aqueles que fazem andar o negócio, os que de facto compram vinho e repetem a compra, esses abastecem-se nas grandes superfícies, querem desconto em cartão e andam atrás das promoções e, quem sabe, talvez no Natal comprar uma garrafinha de 5 ou 6 €. Coisa fina que a família merece. Sulfitos? Isso não é detergente para a máquina?

Sugestões da semana:
(Os preços, meramente indicativos, foram fornecidos pelos produtores)

Nascente branco 2018
Região: Douro
Produtor: Quinta da Roga Grande
Castas: Viosinho e Arinto
Enologia: Mafalda Magalhães (é também a produtora)
PVP: €13,85 (Corte Ingles)
Novo projecto com vinha implantada em velhos terraços, zona de Mesão Frio.
Dica: branco com corpo e estrutura, ponderado na graduação, a mostrar uma enorme vocação gastronómica. Bela estreia.

Pomares branco 2018
Região: Douro
Produtor: Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo
Castas: Viosinho, Gouveio e Rabigato
Enologia: Jorge Alves
PVP: €7,50
Um branco com muita consistência de qualidade, muito moderno no perfil, fruta fresca de recorte tropical. A quinta fica entre a Régua e o Pinhão.
Dica: vinho para consumir jovem, muito estival, apontando para pratos leves de peixe e marisco.

Quinta dos Murças Ânfora tinto 2017
Região: Douro
Produtor: Murças
Castas: Tinto Cão e Tinta Francisca
Enologia: David Baverstock e José Luis Moreira da Silva
PVP: €25 (disponível nas lojas de enoturismo da quinta e na herdade do Esporão)
O mosto fermenta em ânfora com leveduras indígenas e é também aí que faz o estágio até ao engarrafamento. Produção muito limitada.
Dica: bom equilíbrio aromático, fino e com notas de barro discretamente inseridas no conjunto. Uma curiosidade com muita qualidade.

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