skip to Main Content
Menu

Os bons, os espertos e os vilões

Conversa à volta dos preços

Seguindo aquela sugestão do filme Goodbye Lenine em que alguém esteve muito tempo desligado do mundo e depois volta à vida, vamos pensar num personagem que esteve 15 anos longe de Portugal e sem notícias aqui da terra. Apreciador de vinhos enquanto cá estava, regressa após muito tempo fora e, pelo que vê, fica boquiaberto: os vinhos estão muito mais caros e muito mais baratos do que no seu tempo. Uma coisa de extremos. Agora encontra vinhos a €1,50 ou €2, alguns até de regiões que lhe eram queridas, como o Douro e o Alentejo, isto para não falar de Setúbal e do Tejo, onde já era possível, no seu tempo, comprar barato. Depois encontra designativos de qualidade a torto e a direito, aqui são Premium, ali são Reserva, mais além Primeira Escolha e Private Collection, nomes que tinha na ideia estarem associados a vinhos mais caros e de outro gabarito. Mais à frente na procura aparecem vinhos bem caros. Quando daqui abalou, já sabia que o Barca Velha ou o Pêra-Manca eram caros mas os preços destes ícones ficaram estratosféricos, levando atrás outras marcas que ganharam direito a 3 dígitos no preço, como o Legado, vinhos de vinhas do Crasto, Vale Meão, Quinta da Boavista, só para citar alguns. O caso dos vinhos brancos ainda deixa o nosso homem mais espantado: a quantidade de brancos acima dos €35/40 é muito significativa, coisa que não acontecia antes. Ouviu falar agora de outros produtores, sem palmarés para isso, que se querem chegar à frente com vinhos a €400 e produtores da região de Lisboa que, apesar de desconhecidos, apontam preços para próximo dos €100. Ora bem, algo aqui tem de ser explicado ao nosso visitante. Pode ser uma infelicidade para os consumidores mas a verdade é que o prestígio do país só se consegue com vinhos caros e não com vinhos a pataco. Ficam inatingíveis mas isso também acontece com outros produtos. Os grandes vinhos têm de ser caros mas têm de fazer um percurso até lá chegarem, não pode ser de um dia para o outro. Assim, uns continuarão a vender caro e outros não. Depois há que falar de quantidades. É muito diferente vender 10, 15 ou 20 000 garrafas muito caras ou, no lado oposto, fazer uma ou duas barricas de vinho, engarrafar 700 garrafas e depois pedir €80 por cada uma. Com a quantidade de produtores que temos em Portugal a comercializarem um milhão (ou mais) de garrafas, percebe-se que, para não perder a onda, queiram vender algumas a €80. Não se vendem? Ora bem, o produtor e os amigos tratam disso! Vendeu tudo aos chineses? Muito bem mas não foi por via dessa transacção que adquiriu o prestígio. Ao consumidor resta uma redobrada atenção para que não lhe sirvam gato por lebre. Um vinho não é bom por ser muito caro mas se for muito caro tem de ser muito, mas mesmo muito bom. À força de querer ser moderno o produtor português está a embarcar num navio que pode não ter lastro para navegar em águas tormentosas. O negócio dos vinhos de luxo esconde muito mais tempestades que calmarias. E não é para todos.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Azul de Ventozelo tinto 2016
Região: Douro
Produtor: Quinta de Ventozelo
Castas: Touriga Franca, Tinta Roriz e Touriga Nacional
Enologia: José Sousa Soares
PVP: €6,99
Aberto na cor, aroma com notas de flores e fruta fresca. Acessível e fácil de gostar.
Dica: para beber jovem, sempre a acompanhar pratos de pouco tempero (massas, por exemplo).

Roquette & Cazes tinto 2016
Região: Douro
Produtor: Roquette & Cazes
Castas: Touriga Nacional (60%), Touriga Franca e Tinta Roriz
Enologia: Manuel Lobo, Daniel Llose
PVP: €20
Produzido no Douro Superior. Empresa de duas famílias, do Douro e de Bordéus.
Dica: muito bem desenhado, polido nos taninos, com vigor, com elegância de fruta. Boa relação preço/prazer.

Luis Pato Vinhas Velhas tinto 2003
Região: Reg. Beiras
Produtor: Luis Pato
Casta: Baga
Enologia: Luis Pato
PVP: €20 (também na adega do produtor)
Excelente na cor, no aroma e estrutura. Muito fino mas ainda cheio de garra.
Dica: pede pratos de carne com pouco tempero. Pode decantar mas não precisa que tem pouco depósito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back To Top
×Close search
Search