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A paciência que nos falta

E ficamos quase sempre a perder…

No tempo dos nossos pais os vinhos velhos eram os mais valorizados e, até na restauração, os mais caros. A verdade é que os vinhos precisavam de muito tempo em garrafa para ficarem bebíveis. Depois, nos anos 90 do século passado, tudo mudou e deu-se uma enorme revolução: mais e melhor tecnologia, mais técnicos qualificados e vinhos bebíveis mais cedo. Como consequência os vinhos velhos perderam audiência face à explosão de virtudes que os novos traziam. Deixaram de ter valor e passaram para a parte final das cartas de vinhos, na secção de “Relíquias a bom preço”, ou dito por outra forma, “compre por favor que preciso de me ver livre destes monos”. As revoluções têm efeitos destes e actualmente falta-nos a paciência necessária para esperar por um vinho. É seguro que a grande maioria dos que estão disponíveis no mercado não ganham nada em ser guardados e também é verdade que não temos confiança na forma como os vinhos são conservados na maior parte dos restaurantes, o que nos leva a torcer o nariz quando nos propõem, por exemplo, um branco com mais idade. Pensamos logo: será que o empregado apenas está a querer despachar o stock, ou conhece bem o vinho e sabe que ligará bem com este prato? Na restauração existe a vantagem de não pagarmos o que está defeituoso e isso deixa-nos mais tranquilos. Mas fiquemos com a certeza que não são apenas os vinhos mais nobres e caros que merecem ser guardados. Todos temos alguns tintos em casa mas o que falta aos consumidores portugueses é o hábito de guardar vinhos brancos. Por isso a selecção de hoje lhes é dedicada. Há muito mais vinhos do que imaginamos que precisam de tempo, que requerem o amadurecimento que só o estágio lhes pode conferir. E, apesar do que se possa pensar, nem é preciso que esse tempo se estenda por muitos anos. Sem ser uma regra rígida, creio que entre cinco a dez anos idade é o tempo correcto para que um vinho ganhe carácter e distinção. Não foi há muitos anos que tive oportunidade de provar o primeiro Cartuxa branco, de 1990. Estava em muito boa condição e deu prova finória. Mas…quem é que, à partida, diria que um branco do Alentejo duraria 20 anos? O mesmo aconteceu com brancos fabulosos da Tapada do Chaves da década de 80. Mas não se justifica recuar tanto. Os vinhos que apresento são bem mais jovens e estão agora no melhor ponto da sua carreira. Poderão ganhar mais cor mas não se assuste que a cor mais carregada, só por si, não é nenhuma tragédia e só a prova pode confirmar a valia do vinho. Estes são os brancos verdadeiramente interessantes. Não são do quotidiano não vão com qualquer prato mas merecem consumo atento, bons copos e boa ligação com a comida. São fonte de prazer, ao contrário dos brancos vulgares que pertencem à família dos “bebi, mas já não me lembro…!” Uma pequena sugestão: não deixe fugir os brancos de 2008 que a qualidade e a evolução que tiveram foram incríveis. Vamos lá ver na cave o que temos estado a perder…

Sugestões da semana:
(Os preços não são propositadamente apresentados)

Bons Ares branco 2008
Região: Regional Duriense
Produtor: Ramos Pinto
Castas: castas locais e 40% de Sauvignon Blanc
Enologia: à época João Nicolau de Almeida
Vinhas em altitude e, desde sempre, o Sauvignon associado a castas locais.
Dica: cor incrível para a idade, fruta madura mas com imensa qualidade. Uma surpresa e tanto.

Maritávora Grande Reserva branco 2010
Região: Douro
Produtor: Quinta de Maritávora
Castas: lote de muitas castas em vinha centenária
Enologia: Jorge Borges
Vinhas no Douro Superior, algumas castas ainda não identificadas.
Dica: branco de referência no panorama nacional, complexo, cheio e ainda com potencial de vida em cave.

Soalheiro branco 2011
Região: Monção-Melgaço
Produtor: VinuSoalleirus
Casta: Alvarinho
Enologia: António Luis Cerdeira
Carregado na cor, aroma magnífico, cheio e ainda com acidez vibrante, com fruta madura e frutos secos. Uma beleza.
Dica: perfeito para sopas de peixe ou queijos, sobretudo amanteigados ou de meia cura.

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